Ultra-ortodoxos em uma tempestade de areia

Judeus ultra-ortodoxos assistem a reza coletiva de cima de um morro. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Judeus ultra-ortodoxos assistem a reza coletiva de cima de um morro. Crédito Diogo Bercito/Folhapress

Sentado diante de meu computador, para escrever este relato, a primeira memória que me vem são os lamentos: o som grave e contínuo, como um triste zumbido. Então a imagem: centenas de milhares de judeus ao meu redor, rezando a meia voz. Por fim, o gosto: o ar com sabor de poeira, depois de uma violenta tempestade de areia que cobriu o Sol e deixou o céu amarelado.

Foi um dia notável, em Jerusalém. A cidade fechou, hoje, seus acessos e algumas de suas principais vias para permitir a realização de uma manifestação maciça dos ultra-ortodoxos conhecidos, aqui, pelo nome “haredim“. O transporte público teve interrupções.

Os ultra-ortodoxos protestavam durante a tarde, nos arredores da estação central de ônibus, contra a proposta de lei que prevê seu alistamento no Exército. A organização do evento, realizado pelos principais grupos religiosos do país, falava em 500 mil nas ruas. A Polícia estimava 350 mil, em um país de população de 8 milhões.

A manifestação, em um dia inutilizado pela tempestade de areia, deu sinais da capacidade de mobilização –e da força de sua fé– desse importante setor da sociedade israelense que, em outras décadas, esteve protegida por coalizões de governo em que fora mais bem representado.

Muitos dos presentes foram trazidos pelos 2.000 ônibus fretados pela organização do ato. Cerca de 3.500 policiais trabalhavam em prol da segurança durante o protesto. De acordo com relatos, dois jovens pró-alistamento foram agredidos com spray de pimenta em seus olhos e tiveram de ser socorridos.

O protesto de ontem também dá conta de mudanças políticas em Israel, conforme a população secular passa a exigir maior participação dos ultra-religiosos, que são eximidos do serviço militar e, segundo seus detratores, sustentados pelos impostos pagos pela população produtiva.

Os haredim afirmam que já contribuem à sociedade israelense ao dedicar-se ao estudo dos livros sagrados do judaísmo, em vez de a empregos remunerados ou ao serviço militar.

Eu conversei, entre a multidão, com o jovem Shlomo Kwuk, 27. “A leitura da Torá [livro sagrado] é a coisa mais importante do mundo. É o que nos protege neste lugar, em que precisamos de milagres diários para sobreviver. O Exército não é o suficiente.”

Um dos pontos centrais nas manifestações é, porém, a possibilidade de que a lei criminalize a recusa de jovens religiosos em alistar-se no Exército, podendo ser punidos assim com dois anos de detenção.

“Essa injustiça histórica, que durou 65 anos, foi consertada”, afirmou recentemente o ministro das Finanças Yair Lapid, cuja plataforma eleitoral incluía forçar o alistamento dos setores religiosos.

Os haredim presentes na manifestação discordam, porém. “Nós contribuímos de outras maneiras. Temos cuidado de nosso povo há milhares de anos”, me diz Gidon Katz, porta-voz do protesto. Enquanto conversávamos, ouvíamos ao fundo a leitura em massa dos salmos religiosos do judaísmo. “Estamos implorando a Deus para que nos ajude.”

Mas a comunidade ultra-ortodoxa não parece carecer de tanta ajuda. A bem da verdade, como apontam os partidos de direita, as propostas de lei analisadas hoje no governo são bastante generosas aos haredim, propondo dezenas de milhares de isenções nos próximos anos e a perspectiva de que, quando for tornar-se vigente, possam ser revertidas por uma coalizão mais favorável.

“O futuro da nação judaica depende do yeshivot [espécie de escolas religiosas]”, me afirmou Yitzhak Pindrus, que foi vice-prefeito de Jerusalém. “Na maior parte da nossa história, nós não tivemos um Estado. O que nos manteve juntos, nesses milhares de anos, foi a Bíblia. Nos tire o livro sagrado e vamos desaparecer.”

Haredim na periferia da manifestação, em Jerusalém. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Haredim na periferia da manifestação, em Jerusalém. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Setor feminino da manifestação, em Jerusalém. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Setor feminino da manifestação, em Jerusalém. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Trilhos do trem de Jerusalém, interrompido durante manifestação religiosa. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Trilhos do trem de Jerusalém, interrompido durante manifestação religiosa. Crédito Diogo Bercito/Folhapress

Comentários

  1. Preguiçosos inúteis e fanáticos. No fundo, Israel não é tão diferente de seus vizinhos muçulmanos.

  2. Duas perguntas a quem queira responder -em ordem de importância, claro- 1) Qual a origem da palavra “haredim”?… 2) O alistamemto de judeus ultra-ortodoxos foi “solicitado” por qual “grupo” exatamente?

    1. O alistamento dos religiosos é um velho reclamo de todo o restante da sociedade israeli, para a qual o serviço militar é um direito antes que um dever, mas abomina privilégios de uma sociedade que se quer igualitária.

    2. Cara Nina, o termo Haredim tem origem na bíblia. Se não me engano, a primeira menção é no Livro de Isaías 66:5, “Ouvi a palavra do SENHOR, os que tremeis da sua palavra.” Haredim, portanto, seria “aqueles que tremem”, no sentido de tremer diante da “Palavra de Deus”. Quanto a quem exige o alistamento deles, essa é uma demanda antiga do resto da população israelense, principalmente da esquerda.

  3. 500 mil ultra-regiosos em 8 milhões, proporcionalmente falando é tão ou mais que o Irã.

    Quanta covardia, ficar escondidinho lendo o livro ao invés de lutar, acho que nunca leram sobre Davi ou Moisés!

    Futuro depende de escolas religiosas para ensinar as crianças, não, não estou falando das madrassas muçulmanas, mas das yeshivot judaicas, falam, mas fazem igual.

  4. Covardia? Preguiça? Inutilidade…? O problema do não alistamento de alguns judeus então não é somente o “privilégio” de uma classe, mas o fato de alguns estarem se eximindo da luta armada…?

  5. Sim, são fanáticos e, sim, são religiosos. Mas não querem converter ninguém à sua religião através da “Guerra Santa”; vivem em um país minúsculo, apesar de toda a propaganda de “imperialismo”; não enforcam gays; não apedrejam mulheres; não condenam à morte aqueles que deixam a religião; nem estão em guerra permanente com as correntes religiosas que se lhes opõem. Assim, há semelhança, mas um mundo de diferença para os barbudos iranianos e quetais.

    1. não enforcam gays; não apedrejam mulheres; não condenam à morte aqueles que deixam a religião;

      Você já leu a Bíblia alguma vez? Sabe quais são as penas prescritas lá para esses crimes??

      Pois vou te falar:

      A lei do Antigo Testamento ordenava a pena de morte para vários atos: assassinato (Êxodo 21:12), seqüestro (Êxodo 21:16), deitar-se com animais (Êxodo 22:19), adultério (Levítico 20:10), homossexualismo (Levítico 20:13), ser um falso profeta (Deuteronômio 13:5), prostituição e estupro (Deuteronômio 22:4), e

      Dê o poder do Estado para eles e verá a MESMA coisa que nos países muçulmanos, lembrando que o Quaran é a sequência dos Livros Sagrados, você é hipócrita ao falar isso e esquecer, por ignorância ou má fé, do livro que você aponta como certo.

  6. Se no fundo Israel é diferente dos seus vizinhos ? Igualzinho. Senão vejamos: Israel tem pouco mais de 11 kms de largura na altura de Netanya, enquanto os árabes dispõem de 97 % do território do oriente médio, sem falar da África e da Ásia muçulmana; principal produto israelense: tecnologia e ciência; principal produto árabe: petróleo. Nos países da região, os gays são massacrados ou enfocardos; em Israel, Tel-Aviv se orgulha de ter sido eleita melhor destino gay, salvo engano em 2011. Em Israel, há apego à tradição, mas com muito contraponto de modernidade, mesmo nos costumes. Em Bharain, por exemplo, um beijo em público, para os incautos ocidentais que por lá passeiam distraidamente, pode render anos de prisão.

  7. Sabemos que a religiosidade tem que ser respeitada, mas se os ortodoxos tem os mesmo direitos então tem que ter os mesmos deveres.

  8. Diogo
    Esse blog era naus interessante quando você participava.
    Me avise quando voltar a participar que eu volto também.

  9. Vejo 500 mil pessoas demonstrando pacificamente, sem violentar outros seres e sem destruir propriedade alheia. Prefiro os meus ortodoxos assim.

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