O que há de árabe na insurgência ucraniana

Estou há alguns dias na gélida Kiev, enviado pela Folha para cobrir as manifestações populares ucranianas. É minha segunda passagem pelo país em menos de um mês, enquanto a população se mobiliza pela deposição do presidente Viktor Yanukovich. Encontrei aqui, desta vez, um cenário como aquele que tinha visto no Cairo, há alguns meses, com franco-atiradores derrubando manifestantes e cadáveres se empilhando.

Tenho pensado comigo mesmo se deveria ou não escrever aqui sobre a Ucrânia. Este blog, afinal, é “Orientalíssimo” porque tem em mente discutir apenas as questões do Oriente Médio ou o que estiver relacionado, de alguma maneira, às culturas desta região –como o judaísmo e o islamismo.

Então, entre tiroteios e manobras políticas, decidi como contornar a questão. Escrevo, hoje, sobre o que há de árabe na insurgência ucraniana: a etimologia. Ora, as manifestações têm sido apelidadas de “EuroMaidan”, em um portmanteau entre as palavras “Europa” e “Maidan“. O nome vem da praça da Independência, no centro de Kiev, que em ucraniano se chama “Maidan Nezalekhnosti”.  Mas o que é, afinal, “maidan”?

Vocês certamente conhecem, mesmo que de uma maneira indireta, esta palavra. Aqueles que assistiram ao documentário egípcio “A Praça”, por exemplo, talvez se lembram de que o título em árabe é “maidan”. É uma referência a “maidan al-Tahrir” –a praça Tahrir, onde os egípcios derrubaram seus dois últimos governos. É simplesmente o termo em árabe para esses locais de reunião pública.

Eu posso estar equivocado, e peço que me corrijam as inverdades. Mas, apesar de as agências de notícias terem afirmado que o termo “maidan” é persa, uma consulta a dicionários etimológicos aponta que os persas emprestaram a palavra do árabe, que foi também por essa via à língua urdu. A obra “New Perspectives on English Historical Linguistics”, que consultei em versão digital, dá conta do equívoco na identificação da origem do termo, em uso no inglês desde o século 17. Organizei, no Google Books, um gráfico das menções a “maidan” desde 1700 –a imagem abaixo mostra um pico no início do século 20.

Não descobri, até agora, como a palavra foi importada aqui. Aparentemente, o termo “maidan” existe na língua ucraniana, mas não na russa, apesar de ambas serem bastante próximas. Mas, ao que parece, tanto na Ucrânia quanto na Rússia o termo tornou-se bastante comum para designar regiões de aglomeração pública.

É claro que essas observações são mais pela curiosidade. Ou para que vejamos que, ainda que a cultura ucraniana seja imensamente diversa da árabe, ainda há entre ambos os povos –ou entre todos os povos– um núcleo comum que poderia ser explorado em prol da paz.

Comentários

  1. Ora, a Criméia e o sul da Ucrânia eram habitados por muçulmanos de origem turca por séculos, até o Stalin expulsá-los de lá. Hoje a região é ocupada por russos apesar de alguns muçulmanos terem voltado a Crimeia.
    Pode ser que a palavra tenha vindo daí, não só a palavra mas comidas por exemplo.
    Afinal um dos pratos típicos da Ucrânia é o charuto de repolho, holubtsi, parecidissimo com o sarma arabe.

  2. Em chinês, “maidan” significa “a conta”, no restaurante. Isso nao tem qualquer ligacao de nada com nada.

  3. Com tanta coisa importante a ser dita sobre o assunto (gente lutando, gente morrendo, um país sendo transformado, os reflexos que advirão de tal acontecimento), sinceramente, pouco importa a etimologia do evento.

  4. Eu notei, nas leituras das reportagens da Folha ,seu nome no topo e vi que tu estava por aquelas bandas, queria te desejar sorte e perguntar se agora, com a queda do governo, as coisas ficaram resolvidas?

    Acredita em uma divisão política da Ucrânia? Metade para cada lado ao modelo Iugoslavo?

    Quanto a origem da palavra, segundo minha esposa, que fala árabe e urdu a explicação é a mesma que a sua, porém Maidan é uma palavra originalmente árabe que se expandiu pela influência do sultanato.

  5. No momento, muito mais grave que a origem da palavra, é o fato de dezenas de homens perderam a vida nesta luta, por terem colocado no poder um presidente corrupto e subserviente ao “onipotente” Putin. Dementes, (mas tão espertos quando se trata de acumular riquezas pessoais), acreditam tanto no que pregam, que conseguem convencer grande parte da população mais simples. Vale a reflexão, para entender o quão importante é um voto, e as repercussões de ater-se a promessas demagógicas, tanto lá, quanto cá. Por lá, infelizmente, tanto Putin quanto o leste do país ainda darão muito o que falar, e possivelmente, muitos ainda perderão a vida.

  6. O título mais apropriado desse artigo deveria ser “O que há de americano na insurgência ucraniana” logo,não vejo distanciamento do assunto abordado no “Orientalíssimo” visto que,a mesma mão que atua nos conflitos no Oriente Médio é a mesma que está atuando na Ucrânia.
    Isto posto,vamos aos fatos:Este golpe foi assumidamente patrocinado pelo USA que já gastou 5 BILHÕES! a fim de atingir seus objetivos na Ucrânia que é a de quebrar uma suposta intenção da Rússia de criar uma União Econômica Eurasiana com as antigas Repúblicas e o seu consequente fortalecimento regional e de quebra conseguir eleger um presidente pró-américa(tentativa fracassada na Revolução Laranja de 2004) e com isso conseguir instalar uns missiizinhos da NATO apontado pra Rússia.
    É mais do que conhecida a expressão “Fuck de EU! da Senhora Nuland” ao se referir a ineficácia da Europa em atender aos desejos do(s) dono(s) do mundo.
    Diogo omitiu(deliberadamente ou não) de que os snipers eram os “democratas” compostos pelos fascistas,nazistas e pasmem,antijudeus ucranianos(são quem estão sendo patrocinados pelos $$$$),que indistintamente usavam contra civis e uma polícia proibida de usar armas letais em um primeiro momento pelo próprio governo e viu com isso tombarem aos montes.Essa história me soa bastante familiar.
    Democracia?Corrupção?Insatisfações?Isso é apenas um mero detalhe de problemas doméstico.

  7. Essa foi a mesma ideia que eu tive quando eu ouvi eles se referindo ao Maidan em Kiev. Falei para minha mãe que em árabe essa palavra significava praça, e deveria vir do árabe na Ucrânia.

  8. O assunto também refere-se ao judaísmo. Por que o jornalista não mencionou as declarações antissemitas dos líderes dos grupos neonazistas que derrubaram o presidente Yanukovich? Talvez para evitar que a “manifestação popular” ucraniana perdesse o sentido.

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