Jean-Claude Van Damme, espacate e a faixa de Gaza

Gaza é, hoje, o território das privações. A eletricidade é cortada por doze horas diárias. A água tem distribuição irregular. Não há gás de cozinha para todos, não há gasolina, não há mantimentos, não há material de construção. A combinação entre a má gestão da facção palestina Hamas, o bloqueio econômico israelense e a repressão egípcia fizeram desse estreito de terra um dos mais dramáticos da região. Narrei diversas dessas histórias na edição impressa da Folha, há algumas semanas (vocês podem reler clicando aqui).

Criatividade, porém, é um dos bens que não faltam em Gaza. Surgem constantemente exemplos de que esses jovens palestinos, a despeito das privações, e a despeito do regime violento e repressivo da facção Hamas, conseguem fazer suas mensagens cruzarem bloqueios e ganharem o mundo. Como o rapper MC Gaza, que entrevistei no começo do ano (leia aqui). Ou como os comediantes do Tashwesh Gaza, que produziram um vídeo como paródia de um recente comercial estrelado por Jean-Claude Van Damme.

O original mostra o astro das artes marciais abrindo um espacate entre dois caminhões Volvo em ré enquanto fala à câmera, fazendo assim propaganda da estabilidade do sistema de direção dessa marca. A versão de Gaza, porém, mostra um jovem palestino listando as privações desse estreito de terra. Quando a imagem se afasta, é possível ver que os carros são empurrados a mão, ridicularizando o fato de que não há ali combustível o suficiente para todos os veículos.

“Talvez [o comediante] não seja tão bom acrobata quanto Van Damme, mas a mensagem desses artistas em Gaza, apesar de passada com humor, é muito mais urgente do que as banalidades auto-celebrativas de Van Damme para a marca Volvo, que se beneficia da ocupação [israelense do território palestino]”, escreveu o grupo “Intifada Eletrônica” ao divulgar o vídeo.

Conversei há pouco por telefone com Mahmud Zeaiter, 28, líder do Tashwesh Gaza, grupo de comédia de que participam cinco jovens moradores do estreito de terra. “A ocupação israelense e o bloqueio do governo egípcio estão afetando a população”, me disse. “Escolhi o vídeo de Van Damme porque ele é um ator famoso e as pessoas prestam atenção nele.”

Ator Jean-Claude Van Damme durante comercial
Ator Jean-Claude Van Damme durante comercial

Comentários

  1. faltam energia el=etrica, gasolina, etc… mas misseis e foguetes para atacar o estado israelense… isso nao falta, né Diego?!

        1. Eduardo Kardush, a situação em Gaza chegou ao ponto que chegou pela própria falta de administração e pela ingerência dos palestinos, que usam recursos recebidos do exterior e de Israel (é, verdade, recebem muita coisa de Israel sim) para construção de artefatos bélicos e túneis voltados a terrorismo e sequestro de soldados–para troca por terroristas presos. Já ouviste falar no acordo Shalit? Se algum de nós passar uma semana em Gaza, com certeza não vai se envolver em atividades ilícitas e terroristas. Por sinal, como se explica a verba de 90 milhões de euros doada pela EU para abastecimento de diesel (gerador de energia) que sumiu esse ano? Faça-me o favor…

  2. É bom ver um grupo de jovens tratando sua situação deplorável com bom humor, fazendo assim sua mensagem alcançar mais longe. Tem muita gente boa em Gaza, tirando leite de pedra para fazer aquilo em que acredita. Isso é muito mais saudável do que se perder nas engrenagens dos grupos radicais, e possivelmente acabar se explodindo e matando inocentes.

    Não conheço muito do cenário artístico de Gaza, mas imagino que haja uma vida cultural intensa ali, apesar das dificuldades, ou melhor, justamente para se manifestar a respeito delas.

    Eu vi há algum tempo um vídeo legal de um grupo de parkour em Gaza, se eu encontrar de novo o link eu posto aqui.

  3. Nao que a reportagem seja ruim, pelo contrario, de excelente qualidade que e’ a caractersitica do Diogo.
    Bom portugues, bem escrita.
    So’ mesmo a repeticao e’ meio chata.

    1. Marcio, obrigado. É curioso que você tenha a impressão de que seja um texto sobre “coitadinhos palestinos contra os malvados israelenses” quando menciono também a culpabilidade do Hamas e do Egito em relação à situação de Gaza.

      1. De fato foi mencionada a má gestão do hamas.
        Mas na minha interpretação acho que realmente faltou mostrar que existe também o desvio de recursos pelo hamas. Má gestão e’ um termo muito eufêmico neste caso.

  4. Prezado Diogo,
    “Gaza é, hoje, o território das privações. A eletricidade é cortada por doze horas diárias. A água tem distribuição irregular. Não há gás de cozinha para todos, não há gasolina, não há mantimentos, não há material de construção”.
    Cabem alguns esclarecimentos :
    O porta-voz do governo do Hamas em Gaza, Ihab Ghussein, disse há duas semanas que o governo rival (AP) na Cisjordânia interrompeu a transferência de combustível para Gaza porque o governo da região não pagou um novo imposto. O Hamas disse que não pode pagar a taxa.
    Nos últimos meses, o Egito fechou túneis de contrabando ao longo da fronteira de Gaza que forneciam combustível para o território palestino. O Egito também suspendeu as transferências do combustível financiado pelo Qatar por causa de ataques de militantes contra as forças de segurança egípcias na península do Sinai. As transferências de combustível israelense mais caro continuam.Os cortes de energia elétrica em Gaza duram agora 12 horas por causa da escassez de combustível”. Enquanto falta material de construção o hamas gasta toneladas de cimento fazendo túneis para ataques contra Israel. Toneladas de itens alimentícios, de construção e de consumo em geral entram em Gaza em mais de duzentos caminhões via Israel (Kerem Shalom) todos os dias. Itens que são vistoriados e destinados e/ou desviados pelos homens do hamas que controlam à tudo e à todos dentro de Gaza.
    Em https://s.exame.abril.com.br/mundo/noticias/gaza-enfrenta-falta-de-energia-eletrica e várias outras mídias.
    “Conversei há pouco por telefone com Mahmud Zeaiter, 28, líder do Tashwesh Gaza, grupo de comédia de que participam cinco jovens moradores do estreito de terra. ”A ocupação israelense e o bloqueio do governo egípcio estão afetando a população”, me disse”.
    Outros esclarecimentos :
    Ocupação ?? Israel saiu unilateralmente de Gaza há cinco anos e recebeu em troca ataques do hamas como contrapartida.
    “A má gestão da facção palestina hamas”, como descrita acima,é de uma generosidade excessiva para descrever o horror e as dificuldades que a população civil está sofrendo nas mãos deste grupo que prega em seus estatutos a destruição de Israel.
    um abraço, Luiz.

    1. Luiz, obrigado pela colaboração. Quanto à “ocupação”, trata-se da visão corrente entre palestinos e também na comunidade internacional de que a saída de Israel não significou o fim da ocupação para a faixa de Gaza, já que esse estreito de terra continua sob bloqueio aéreo, marítimo e terrestre. Mas a sua leitura defensiva talvez ignore a opinião também corrente, e que consta do texto, de que a calamidade atual em Gaza é fruto também da opressão egípcia e da presença do Hamas. Para a “má gestão”, aceito sugestões para melhor descrever a influência da facção palestina no estreito. Um abraço, Diogo.

      1. Prezado Diogo, agradeço suas observações e retomo com algumas mais.
        Poucos jornalistas se interessam pela etimologia e significado das palavras quanto você. Portanto, analisemos a palavra ocupação em diversos, entre tantos, dicionários :
        1.Captura e controle de uma área por forças militares, especialmente quando se trata de território estrangeiro.
        2.Posse: ocupação de um território.
        3.Tomada de posse ou invasão de um lugar.
        4.Tempo durante o qual território se encontra conquistado ou invadido.
        5.Ação de invadir um local: a ocupação de um território.
        6.Apoderamento, apropriação, conquista, invasão, posse, tomada.
        7.O ato ou efeito de ocupar.
        Existiria alguma dúvida de que inexiste “ocupação” em relação à Gaza. E que, o termo nada mais é do que mais um dos chavões em voga em relação à campanha de deslegitimar Israel.
        Você crê e/ou propagaria pela “visão corrente entre palestinos e também na comunidade internacional”, de que o Estado de Israel comete um genocídio contra o povo palestino, de que sistematicamente pratica limpeza étnica, de que sionismo e nazismo sejam similares. E, outras tantas difamações que vinculam ao Estado israelense o que de pior possa existir de um país “que se diz democrático” ?
        O bloqueio à Gaza ocorreu quase dois anos após a total desocupação israelense daquele território ( 21 assentamentos / 9.000 colonos ). Se deu depois da ascensão do hamas e, após seus diversos atos terroristas, lançamentos de centenas, que depois viraram milhares, de foguetes, sequestro de soldado em solo israelense, e outras tantas tentativas frustradas de atacar Israel.
        Você, que já esteve por duas vezes em Gaza neste ano, como nos explicaria a construção de hotéis luxuosos à beira do Mediterrâneo, complexo gastronômico (Roots The Club), shoppings e outros empreendimentos, num lugar que se diz sob “ocupação” e passando por tantas necessidades pelo bloqueio israelense.
        Quanto a “má gestão” do hamas cito somente uma das piores coisas que este grupo fez aos milhares de gazans que iam e vinham dos seus empregos em Israel todos os dias. A privação de terem seus trabalhos e seus salários para viverem em condições dignas e melhores. Sem precisarem mendigar nas filas de alimentos sob o beneplácito, ou não, destes que os prejudicaram e os exploram politicamente até os dias de hoje.
        O hamas prega a pura e simples destruição do “Estado Sionista” (está em seus estatutos). Reconhece, tão e somente, que todo o território do rio (Jordão) ao mar (Mediterrâneo) seja solo palestino.
        Pode chamar de “má gestão” ou usar de qualquer outra terminologia, mas esta é, infelizmente, a verdadeira face do hamas.

        1. Bloqueio aéreo, marítimo, terrestre e econômico, para ti não é ocupar?

          É no mínimo um ato de ocupação.

          Se Israel sofresse um bloqueio sob bloqueio aéreo, marítimo, terrestre e econômico com certeza o discurso seria outro…

        2. Caro Luiz, eu acho que discussões semânticas não levam a nada. Poderíamos aqui discutir se no caso de Gaza se aplica a definição 1 que você deu, já que o bloqueio a Gaza, através do controle de importações, impõe um certo controle sobre a vida da população palestina.

          Pode ser que o termo “ocupação” não se aplique mais a Gaza desde a retirada unilateral de Israel, mas o bloqueio prejudica em muito a população. Esse bloqueio, somado à corrupção e ingerência tanto do Hamas quanto da Fatah, à briga entre as duas facções que culminou em guerra fiscal e corte de fornecimento de combustível, e ao fechamento da fronteira com o Egito, torna praticamente insuportável a vida em Gaza.

          1. Beto_W, discussões semânticas são importantes, para evitar o media framing que favorece um lado sem a legitimidade e direito de fazê-lo. “Ocupação israelense” não existe em Gaza há anos, o que existe é bloqueio, sanções por conta de ataques terroristas contínuos e frequentes. O problema humanitário é decorrente da corrupção e ingerência administrativa, se destrói ao invés de construir, brigam entre eles e estão dizimando os cristãos que ainda vivem na faixa. Essa parte parece esquecida no debate. Enquanto o ódio for semeado pelos terroristas e o ocidente engolir o “framing” de palestino coitadinho, a situação do cidadão comum em Gaza não vai mudar.

          2. Cara Raquel, aparentemente você acredita que a mídia global favorece os palestinos. No entanto, aqueles que são pró-palestinos acusam a mídia justamente do contrário, de favorecer Israel – chegando até ao ponto de acusar os judeus de dominar a mídia global e assim impôr sua opinião.

            Eu concordo com você e com o Luiz que não há mais ocupação física em Gaza. Mas creio que você concorde que as sanções e o bloqueio atingem a população palestina de Gaza em geral. O problema humanitário não é só decorrente da corrupção administrativa, o bloqueio é um fator considerável.

            Os sucessivos ataques israelenses à infraestrutura de Gaza nos últimos 10 anos também contribuiram para essa crise humanitária, e só fizeram fortalecer a posição e o apoio popular do Hamas e de outros grupos radicais e terroristas. O bloqueio também faz com que o povo se sinta oprimido e perpetua o ódio.

            Existe uma diferença entre condenar o terror e negar a crise humanitária palestina – ou a parcela de responsabilidade que cabe a Israel.

            Raquel, eu já fui assim, um sionista fanático que enxergava israel como o mocinho dos filmes de ação, de moral imaculada. Mas depois que percebi que não é bem por aí, comecei a enxergar alguns absurdos que eu defendia. Note, não estou dizendo que Israel é o único culpado pela situação, mas que não se pode atribuir a culpa tão somente ao lado palestino/árabe/muçulmano.

      2. Muito bem dito, Diogo.

        Lembrando que qualquer túnel achado na fronteira é destruído logo pelo próprio governo servil do Egito que poderia ser um interlocutor de alto nível, mas prefere vender seus generais.

    2. “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”.
      Acredita mesmo nesta frase do alemão? A desvinculação de israel dos problemas palestinos é repetida não mil, mas milhares de vezes.
      Não adiantará, Israel não engana mais o mundo.

      1. Nossa, José!!! O pelo do meu braço está arrepiado e meu coração acelerado de tanta emoção! Depois deste seu mega-super-plus esclarecedor comentário sobre Israel meu entendimento sobre o Oriente Médio e sobre o mundo todo sofreu um giro de 180 graus!!! Sem mais palavras!!! É muita emoção!!!

  5. O hamas não administra bem.. Ok, mas e o resto? Até operações bancárias precisam passar pelo crivo de Israel, lembra o Brasil sob comando de Portugal, antes da abertura dos portos, a diferença é que gaza não tem nada para ser explorado pela “metrópole”.

    E tem gente que acha isso normal, era normal no gueto de Varsóvia para os alemães, assim como para os sionistas (não confundir com judeus).

      1. Podem ser judeus, mas muitos judeus não são sionistas (sim, existe luz no fim do túnel e se quiser cito nomes), assim como muitos alemães não eram nazistas e como muitos não judeus são sionistas, muitos russos não eram comunistas e nem todos brasileiros são petistas e amantes de samba.

        Enfim, por mais que você gostaria que fosse, política e anti-semitismo não se confundem aqui, claro que para ti sempre vai ser assim, afinal é sempre bom ter essa carta do anti-semitismo na manga, evitando, assim, qualquer crítica.. Muito Esperto.

        1. Aliás, você parece um iraniano falando, afinal, lá religião e política de estado se confundem, logo, criticar um é como criticar o outro e vice-versa… Critica tanto os coitados e faz igual, quanta hipocrisia.

          1. Podem ser, mas, como eu disse antes, muitos não são, assim como pessoas de outros credos são.

            O sionismo não faz parte do judaísmo e é essa questão que Israel precisa ver, se Deus quiser um dia verão 😉

  6. O fortalecimento do hamas foi “estimulada”,vamos assim dizer, por Israel pra fazer um contraponto em uma época em que Arafat,sendo o inimigo a ser batido,evitava por todos os meios que as facções ficassem isoladas e que, dessa forma, os grupos marginais se radicalizassem fortalecendo com isso a causa palestina.Ou seja,o inimigo do meu inimigo é meu amigo até um dia em que o meu amigo passa a ser o inimigo a ser batido e assim vamos perpetuando a “roda da fortuna” com a manutenção do opressões diversas e assentamentos indiscriminados ad infinitum.Apesar de não simpatizar com o Hamas houve um líder Abu Shanab assassinado pelo Shin Bet em 2003 havia declarado anteriormente:”A solução prática para nós é termos um Estado ao lado de Israel.Quando nós construírmos um Estado Palestino nós não precisaremos destas milícias.Todas as necessidades pra atacar cessarão e tudo mudará pra uma vida civil.Talvez tenha sido por isso, pela vontade de paz e a dos dois Estados que ele tenha sido assassinado.
    A propósito,alguém tem dúvida o que o mais novo amiguinho da ora, os Sauds vão ser amanhã?

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