O dia em que um israelense assassinou seu premiê

Rabin (à esq.), Bill Clinton e Yasser Arafat em seu aperto de mãos histórico

Acabo de ler uma excelente análise sobre o ex-premiê israelense Yitzhak Rabin, assassinado há exatos 18 anos, em 4 de novembro de 1995. O texto foi publicado pelos amigos do Conexão Israel, projeto de brasileiros que, após imigrar, moram hoje no Estado de Israel. Cliquem aqui para ler o original, que comento a seguir.

O autor, João Miragaya, insiste na importância de nos lembramos do assassinato de Rabin –não como um fato consumado, mas como uma lição ao porvir. De maneira que, me parece, o artigo analisa a morte do premiê israelense para além da história em si, concentrando-se também nas circunstâncias históricas que permitiram a um cidadão atropelar a democracia e interromper um processo de paz, um governo e uma vida.

Miragaya argumenta que, em um momento histórico semelhante, temos o dever de manter viva a lembrança da morte de Rabin. “Parece que não aprendemos muito com o caso ocorrido”, diz, antes de elencar uma série de personagens políticos que, em 1995, ajudaram a criar o ambiente macabro que levou ao israelense Yigal Amir a assassinar seu próprio premiê.

“Um só dedo puxou o gatilho, mas muitas vozes de incentivo o ajudaram a tomar essa decisão”, escreve Miragaya. Entre eles o rabino Chanan Porat, que afirmara “não estamos dispostos a continuar a jogar pelas regras do jogo democrático”. Ou o rabino Menachem Felix, que dissera que “o atual regime não tem maioria judaica no Parlamento para retificar a rendição [à autoridade palestina]”. Ou ainda o rabino Shlomo Goren, que instituíra como lei religiosa o dever de soldados a desobedecer ordens para demolir os assentamentos judaicos nos territórios ocupados.

[…] ainda em 1993, o então líder da oposição Binyamin Netanyahu aprovou uma declaração da oposição que afirmava: “O povo se ergue contra a traição do governo Rabin”. O atual premiê não parou por aí: fez discursos inflamados a frente de cartazes com fotos de Rabin trajando uniformes de terroristas árabes, faixas com a inscrição “Morte a Arafat” e clamou o povo a derrubar Rabin e Peres antes das eleições.

A imagem de Rabin como “traidor” e “nazista” não é acidental, segundo Miragaya, já que são essas as acusações que culminam na pena de morte, em Israel. “Essas ações, no mínimo irresponsáveis, têm sua parcela de responsabilidade pelo assassinato de Rabin”. Assim como é preocupante o atual assédio a Tzipi Livni, ministra da Justiça da Israel, vítima de ataques por ser vista como responsável pela soltura de prisioneiros palestinos durante as tramitações da negociação de paz entre israelenses e palestinos –repetindo “a postura que culminaria no assassinato de Rabin”.

O premiê israelense assassinado em 1995 havia sido eleito em 1992. Vou recorrer ao excelente livro “The Arabs: A History”, de Eugene Rogan, para dizer que “a reputação de Rabin como o homem que havia autorizado violência física contra manifestantes da Intifada deu aos negociadores palestinos pouca esperança de que ‘Rabin o quebra-ossos‘ pudesse se tornar ‘Rabin o pacificador’.”

A história provou o contrário. Em 1993, o primeiro-ministro israelense assinou os Acordos de Oslo, que previam então que cinco anos depois houvesse uma solução definitiva para a chaga do conflito árabe-israelense no Oriente Médio, já naquela época velho e violento demais. Os acordos assinados por Rabin mudaram o jogo, aproximando Israel de seus vizinhos e estabelecendo os marcos legais para um futuro pacífico na região –até a persistência dos assentamentos, do terrorismo e da retórica negativa.

Em 4 de novembro, Rabin realizou uma passeata pela paz, em Tel Aviv, dizendo aos presentes que “a nação de Israel quer paz, apoia a paz”. Nem todos, escreve Rogan:

Um homem foi à passeata para encerrar o processo de paz. Enquanto Rabin era escoltado do pódio de volta a seu carro, um estudante de lei israelense chamado Yigal Amir entrou por uma fresta no cordão de segurança e atirou no primeiro-ministro. Em seu julgamento, Amir confessou abertamente o assassinato, explicando que havia matado Rabin para interromper o processo de paz. Convencido do direito divino do povo judaico por toda a terra de Israel, Amir acreditava em seu dever como judeu religioso em prevenir qualquer troca de terra por paz.

Comentários

  1. Nós, brasileiros (acredito que ), não conseguimos entender porque esses povos não podem viver pacificamente. É tão fácil , inspirem-se nos nossos palestinos, árabes, judeus, negros, brancos, europeus, todos vivendo nesta grande mãe chamada Brasil.

    1. Os “nossos” islamitas e judeus vivem pacificamente por aqui porque o Muro das Lamentações e a Mesquita de Omar estão há mais de 10.000km de distância e porque, graças à sorte ou à ignorância geográfica do autor das sagradas escrituras, a América do Sul não consta de nenhum dos versículos bíblicos ou sequer das suras do alcorão.

  2. Prezado Diogo,
    falar em circunstâncias históricas nos faz remontar à outubro de 2000, quando tudo indicava que finalmente os líderes de Israel e Arafat chegariam a um acordo de convivência que levaria à coexistência pacífica entre o Estado de Israel e um futuro Estado palestino, à ser proclamado nas áreas da Autoridade Autônoma Palestina em territórios que Israel desocuparia no âmbito do acordo. As delegações chefiadas pelo primeiro-ministro de Israel, Ehud Barak, e o presidente da Autoridade Palestina, Yasser Arafat, reunidas em Camp David com a delegação americana, chefiada pelo presidente Bill Clinton, tinham sobre a mesa a ousada proposta de Barak, concedendo aos palestinos quase todas as suas reivindicações: 95% dos territórios ocupados (e negociações para acertos de fronteira e troca de territórios de acordo com a situação demográfica e as questões de segurança), um regime especial para Jerusalém, que permitisse, sem dividir a cidade, que os palestinos lá tivessem sua capital, desocupação da maior parte das colônias judaicas, acordos de cooperação econômica que viabilizariam o novo Estado a ser proclamado e todos os detalhes redundantes dessa postura básica.
    Surpreendentemente, no último momento, Arafat recuou, rejeitou a proposta e deu início à intifada, que se alegou ser uma reação de revolta palestina ante uma visita “provocadora” de Ariel Sharon ao monte do Templo. Evidentemente, o simples senso comum faz descartar a possibilidade de que a visita de Sharon tenha desmantelado a disposição de Arafat de aceitar as propostas de Barak, caso ele tivesse mesmo a intenção de aceitá-las antes. O fato é que a visita de Sharon foi um pretexto para que Arafat rejeitasse propostas praticamente irrecusáveis como ponto de partida para uma convivência pacífica.
    Se Arafat tivesse aceitado o acordo de Camp David, reivindicações hoje complexas e mais difíceis de serem aceitas e, concessões, ainda mais problemáticas no momento atual, não estariam em pauta.
    De há muito o Estado Palestino estaria consolidado, com territórios devolvidos, Jerusalém com áreas demarcadas entre árabes e judeus. Com certeza, fundamentalistas dos dois lados seriam os únicos e maiores derrotados com o acordo. E, mais do que provável, Yitzhak Rabin não teria sido morto por um fanático religioso em 1995.
    Infelizmente, a roda da história girou no sentido da tragédia que, nos privou de um estadista que queria a paz, prosseguindo com um outro que preferiu a perpetuação do conflito ao invés de tê-la.
    Um abraço, Luiz.

    1. Pelo que consta em Camp David foi marcado por posicionamentos vacilantes e de muita desconfiança de ambas as partes sendo que a proposta feita foi de 91% das terras ocupadas.A negativa de Arafat fez com que recebesse duras críticas de seus algozes como tendo sido o único culpado pelo não acordo o que é uma tremenda de uma injustiça.
      Em uma análise superficial essa troca de terra por paz parece atentadora,mas uma análise mais detalhada da proposta observa-se que uma questão básica chamada soberania e autodeterminação não estavam garantidos,ou seja,não poderia ter soberania do seu espaço aéreo,nem um corpo militar e pelo menos uma estrada de controle israelense que corta leste-oeste da Cisjordânia em uma situação de declaração de estado de emergência os palestinos não poderiam transitar por ela dentre outras coisas.Talvez seja por isso que Ami Ayalon ex-chefe do Shin Bet declarou após o fracasso de Camp David:
      ” Barak had arrived unprepared and hectored Arafat, instead of negotiating with him. Ayalon also claims that the Intifada was not planned by Arafat”
      Fico imaginando Arafat anunciando ao seu povo o excelente negócio.
      Logo,a visita de Sharon à mesquita Al-Aqsa(que foi uma provocação gratuita sim)ocorreu em setembro de 2000 e caso Arafat quisesse usá-lo de pretexto pra não negociar não teria proposto uma nova rodada de negociação em Taba janeiro de 2001 onde os analistas reconheceram um desejo genuíno de ambos de chegarem a um acordo quando então propôs-se 94% das terras ocupadas mais 3% das terras de Israel a serem definidas perfazendo um total de 97% mantendo a questão da soberania em aberto a ser discutido em futuros encontros que nunca houveram pois que Clinton já não era mais presidente e Bush assim como Sharon que estava prestes a ganhar as eleições em Israel não mostravam nenhuma disposição pra avalisar qualquer acordo de paz.
      Quanto a Rabin é digno de respeito por após ter sido um algoz dos palestinos ter tido a humildade e sensibilidade de fazer um mea culpa digno de valor próprio de um sábio e que por isso pagou com a própria vida em um Estado que ainda não está preparado pra pagar o preço pela paz.
      O sionismo enquanto defesa da existência do Estado de Israel é fato consumado mas o modus operandi com que os líderes sionistas tem utilizado para isso tem sido o maior responsável pelos conflitos na região.No dia que seus defensores perceberem que a segurança em conflitos nunca é uma condição e sim uma consequência da paz adquirida de maneira equilibrada segundo os parâmetros de justiça das Nações Unidas então a paz que vc e todos nós almejamos será atingida.

      1. Gaza é prova incontestável de que devolver territórios, sem certeza absoluta de se abdicar do terror, não é suficiente para se chegar à paz.
        Soberania e auto determinação se faz com condições financeiras/econômicas que permitam a construção das mesmas.
        A simples implantação de um Estado Palestino não significará que este Estado automaticamente adquirirá status de país que consiga andar com suas próprias pernas.
        A melhor opção dos palestinos é aceitarem a ajuda israelense para atingirem o mínimo de progresso e desenvolvimento como país auto sustentável. Caso contrário, viverão, como sempre, às custas de esmolas e fundos como um Estado de eternos refugiados.
        Interessante que Israel, Estado soberano com 65 anos de independência, até hoje não é reconhecido como tal por palestinos e maioria dos países da Liga Árabe. Donde se conclui que, condição “sine qua non” é primeiramente, e antes de tudo, este reconhecimento, e não o contrário.

        1. Serei um crítico dos palestinos caso não venham aceitar esta ajuda que seria sem dúvida INDISPENSÁVEL e que dessa ajuda possa surgir duas sociedades co-irmãs independentes mas o que temos hoje é um lado infinitamente mais forte e opressora e o outro lado um povo oprimido e numa condição como essa a responsabilidade pela paz, pra mim, recai proporcionalmente sobre o lado mais forte.Mesmo assim vale lembrar que se considerarmos a partilha recomendada em 1947 em termos de terras os palestinos já abriram mão do que foi anexado de lá até 1967(~27%) mais 6% da Cisjordânia em Taba(o que não é pouco), e pelo que consta já houve o reconhecimento desde Arafat do Estado de Israel,não? e aquilo que poucos sabem é que a liga Árabe neste século mesmo chegou a propor o reconhecimento conjunto do Estado de Israel nas fronteiras de 67 tendo sido ignorado por Israel(essa informação lida numa das minhas navegações em um site americano “un passant” mas estou buscando confirmação disso pois que é bastante alvissareira).
          Israel é um player importante na região e tentar
          omiti-lá(ou inocentá-la) dos acontecimentos em volta é o mesmo que negar a sua existência.Hoje eu não tenho dúvidas de que a bola está com Israel?

  3. Diogo, obrigado pelo texto e pela indicação do site Conexao.
    Há um conteúdo muito interessante e discussões de alto nível.

    Achei a análise do professor Miragaya excelente. Israel deve tomar cuidado com aqueles que se escondem atrás do véu democrático para acabar com a democracia.

  4. Eu me lembro exatamente do momento em que recebi a notícia do assassinato de Rabin. Foi como um soco no estômago. E a primeira coisa que pensei era que fosse obra de terroristas palestinos. Quando soube que havia sido um jovem judeu israelense, foi como um outro soco no estômago, mais forte ainda.

    Foi algo chocante, que trouxe à tona uma dicotomia da sociedade israelense e deixou uma ferida que até hoje permanece aberta. E infelizmente, o assassino conseguiu o que queria, parar o processo de paz. O que mais me revolta é a quantidade de fãs que esse facínora angariou, inclusive recebendo na prisão cartas de várias pretendentes querendo casar-se com ele.

  5. Diogo, desculpe o atraso, mas gostaria de dar meu breve coment sobre seu artigo anterior “Um mundo sem o islamismo”.
    Pois eu ja muitas vezes pensei que o mundo seria bem melhor sem EUA (que se acha “dono do mundo”) , a Russia e a China.
    O islam é um mundo a parte que está em outra e a gente tem que deixar pra la.

  6. A chave do conflito, há muito me parece, está nas declarações de Yigal Amir durante o seu julgamento, segundo as quais, em resumo, o povo judaico tem direito a todas as terras de Israel por direito divino.
    Esta é uma afirmação incontestável, jamais poderá ser falseada ou submetida à prova. Com efeito, enquanto este dogma religioso persistir entre os judeus influentes, o conflito persistirá.
    O pior, entretanto, é que há idéias incontestáveis da mesma natureza também no campo palestino; afinal, Maomé ascendeu aos céus justamente desde o lugar onde se localiza a mesquita de Al-Aqsa em Jerusalém (ou próximo dela). Desgraçadamente, a tal mesquita está localizada no Monte do Templo, onde está fincado o HaKotel HaMa’aravi (“Muro das Lamentações”), o local mais sagrado do judaísmo por ser, segundo a tradição, o último vestígio do Templo de Herodes.
    Tradições deste quilate, desmentidas pelos fatos históricos, desde que dominem a política, bastam para tornar inconciliáveis os povos palestino e judeu.
    Ora, são estes fetiches religiosos (indesmentíveis pelos mesmos motivos que incomprováveis) que transformam deus em Oficial de Registro de Imóveis ao “conceder” a ambos os povos os títulos das MESMAS terras.
    Enfim, desde que não se suprima da política as alucinações religiosas, aquele conflito, e tantos outros, não terá solução.

  7. Existe uma diferença entre por um lado uma religião que permite a discordia, o ódio e a guerra entre os homens e por outro lado uma religião que professa a paz e o bem estar entre os homens? O que temos presenciado é que a mesma religião faz esses dois papeis. Essas religiões tem lideres notáveis que se apresentam como pessoas sábias e são considerados como tal pelos que acreditam neles. Como é que isso fica?

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