42 minutos ao lado do presidente de Israel

Minha entrevista com o presidente israelense Shimon Peres, na quinta-feira. Crédito Joel Silva – 10.out.2013/Folhapress

Foram meses de espera. Primeiro, a espera de que o gabinete de Shimon Peres, presidente de Israel, me atendesse o telefonema insistente. Depois, que seus assessores avaliassem meu pedido para uma entrevista exclusiva. Então o aguardo para uma brecha na agenda desse que é um dos ícones políticos de Israel. Mais um mês entre atrasos e desentendidos. Finalmente, na última quinta-feira, me sentei ao lado de Peres por 42 minutos.

Se nós jornalistas somos movidos por uma confusa mistura de ansiedades, para os repórteres de temas internacionais uma das tensões mais poderosas é a fome de ter a oportunidade de conversar com um presidente. Todas as notícias sobre as quais temos escrito, há anos, parecem então personificadas. No caso de Peres, vivo há nove décadas, a sensação é mais violenta –apertando a mão do presidente de Israel, repensei as manchetes que já li sobre esta região. Esse homem viveu todas elas. Peres imigrou ao mandato britânico da Palestina antes de o Estado de Israel existir, participando de todos os eventos políticos do país.

Peres foi primeiro-ministro durante dois períodos. Desde 2007, ele ocupa a Presidência –que, aqui em Israel, tem um caráter mais cerimonial do que de tomador de decisões. O presidente israelense é fundador de um centro dedicado a ações rumo à paz, tema a respeito do qual gosta de falar em público. Líderes de todo o mundo vem a Jerusalém para celebrar seu aniversário, anualmente. Ele assinou os Acordos de Oslo, em 1993, pelo que recebeu o Nobel da Paz no ano seguinte.

Nada disso, é claro, significa que o tempo, a história –e o jornalismo– vão ser complacentes. Peres foi, nos anos 1970, um defensor da política de assentamentos, que hoje é apontada como um dos principais entraves à paz com os palestinos. Como pedra angular da política israelense, o presidente também terá de eventualmente prestar contas pelos fracassos das negociações e pela persistência da ocupação da Cisjordânia, apesar da condenação internacional.

Para além das manchetes e dos livros de história, o presidente de Israel é um senhor idoso e agradável com uma notável concentração e capacidade de discursar. Ele se senta ao meu lado e quer saber quem eu sou, de onde vim, para onde vou. Quando a princípio respondo em hebraico, ele se surpreende. “Aval atá medaber ivrit?“, me pergunta. Mas você fala hebraico? Eu brinco que “ló, rak zê”. Não, só isso. Seguimos a conversa em inglês. Conversamos sobre toda a região. Irã, Síria, Egito, territórios palestinos. Falamos sobre amor, sobre paz e sobre futebol. Até que os meus 42 minutos terminaram e nos despedimos.

Vocês podem ler os principais trechos da entrevista na edição desta segunda-feira da Folha (14.out). Ou clicar aqui.

Comentários

  1. Mazááá Diogo parabéns pela entrevista, vai dar um UP na carreira.

    Te adicionei no facebook, se quiser aceitar fica o convite.

    Infelizmente ele começou com a política dos assentamentos e essa política acho que nunca irá terminar e a paz não vai chegar tão cedo.

    Abraço.

  2. Diogo,
    Muito boa entrevista.
    Perguntas inteligentes e sem subterfugios.

    Parabens.
    Gostei da roupa tambem!

  3. Parabéns pela entrevista, Diogo! Que seja a primeira de muitas com figuras políticas de peso da região!

    Excelente entrevista, ótimas perguntas. É claro que seria indelicado ser mais incisivo em alguns pontos, dos quais Peres se esquivou, político experiente que é. E talvez a insistência em algum ponto mais polêmico terminasse ali mesmo a entrevista e fechasse as portas para outras entrevistas, tanto com ele quanto com outros políticos israelenses. Imagino ser complicado o dilema do jornalista, se equilibrando na corda bamba entre a busca por respostas e a receptividade do entrevistado, ainda mais no OM, onde a política é sempre polarizada.

    E como bem disse o Marcio, o figurino também estava impecável!

  4. Prezado Diogo, sobre suas linhas :

    “Peres foi, nos anos 1970, um defensor da política de assentamentos, que hoje é apontada como um dos principais entraves à paz com os palestinos. Como pedra angular da política israelense, o presidente também terá de eventualmente prestar contas pelos fracassos das negociações e pela persistência da ocupação da Cisjordânia, apesar da condenação internacional”.

    Suas considerações sobre Shimon Peres não coadunam com sua importância como um dos mais sensatos políticos em todo O.M.
    Foi a favor dos assentamentos quando se viram necessários, como povoações em áreas de importância, para a segurança israelense na época.
    Não nos no disse, porque não lhe foi perguntado, qual a opinião dele quanto aos assentamentos nos dias atuais. Na entrevista a pergunta e resposta foram :

    Diogo : ” Mas território não é uma razão para o conflito com as autoridades palestinas, na Cisjordânia”?
    Shimon Peres : “Isso é solucionável. As pessoas esquecem que, nas guerras, conquistamos territórios árabes. Quando houve paz, devolvemos tudo. Ao Egito, à Jordânia. Sem problemas.
    Começamos a devolver aos palestinos também. Tiramos os colonos de Gaza, em 2005. Mas, infelizmente, eles recorreram ao terrorismo. As diferenças territoriais são pequenas, entre 4% e 6%. Isso pode ser resolvido pela troca de terras. Há uma solução”.

    Quanto à prestar contas aos fracassos de negociações. Prestar contas à quem ? Ele sempre prestou e, até hoje presta contas a sociedade israelense que sempre defendeu.
    Bem ao contrário do egípcio Arafat, que, preferiu a segunda intifada à desocupação de praticamente todos os territórios, a partilha de Jerusalém como capital e a criação de um Estado Palestino.
    Se existiram e existem entraves entre palestinos e israelenses cabem estes em sua grande parte aos que nunca aceitaram a existência do Estado de Israel e, o seu reconhecimento, que não abdicam do terror e da tentativa inútil de tentar destruir o Estado Judeu.
    Enquanto gastam 500 toneladas de cimento para fazerem um túnel para levar a morte e destruição à Israel, choram ao mesmo tempo, clamando ao mundo não terem cimento para construção de casas, escolas e hospitais. Esse é mais um exemplo do retrato dos negociadores que deixavam o Presidente Shimon Peres, “preocupadíssimo” quando negociava com palestinos e aos que devia, realmente, prestar contas.
    Um abraço, Luiz.

  5. Pena que esse Sr. Peres não manda mais nada em Israel.
    O atual mandachuva Benjamin parece mais um terrorista sempre tentando colocar mais fogo na fogueira. Essa invocação negativa em relação ao Iran não passa de uma palhaçada sem tamanho pois por pura inveja ele não quer que o Iran tenha o que Israel ja tem há muito tempo, ou seja poder nuclear.

    1. Verdade? Os terroristas do Hamas desviam, para construção de um túnel com finalidades funestas e óbvias, todo o material de construção que o governo de Israel forneceu à faixa para reconstrução de escolas, hospitais e moradias, e o primeiro ministro Benjamin Netaniahu é que é o verdadeiro “terrorista incendiando a fogueira”?

  6. Diogo, Parabéns pela entrevista. Também foi muito legal a reportagem com o Batalhão Caracal, a sargento brasileira Gianine Melo foi uma super personagem.

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