No porto de Áden, o sal da revolução

No castelo de Sirat, em Áden, ao lado de Moh’d Bamatraf. Crédito Diogo Bercito/Folhapress

Esqueçam o pó. O cheiro, em Áden, é de sal. Diante do mar arábico, nesse que já foi um dos portos mais importantes do mundo, essa cidade sulista não se parece em nada com a seca capital Sanaa. Hoje, o mercúrio tende aos 40º C, e a umidade passa dos 50%. Nos mercadinhos, panos para enxugar o rosto estão entre os itens prediletos.

Estou aqui para entender uma região que insiste em seu contraste em relação a Sanaa e às outras províncias do norte. As pessoas com que converso me pedem para prestar atenção, para ver que ninguém aqui carrega adagas, para notar que algumas mulheres não cobrem o rosto. Para que concorde que a cultura, em Áden, está mais próxima do modo de pensar europeu, fruto de décadas de colonização inglesa (1839-1967).

Isso ainda está por ser discutido. Mas é fato que esse argumento é recorrente aqui no sul, sendo usado para justificar os pedidos por uma nova separação entre as duas regiões iemenitas, trazendo de volta da poeira da história o Iêmen do Sul como um Estado soberano.

Há muito charme em Áden. Construções britânicas do início do século 20. Uma miniatura do Big Ben. Casinhas subindo as encostas da cratera de um vulcão extinto. Um mar aberto, calmo. Mas há também a desolação de uma província esquecida pelo governo central, as montanhas secas ao redor e as pilhas de lixo que ninguém se lembra de recolher.

Entre o esplendor do passado e a miséria do presente, encontrei um rapaz à espera de um futuro com mais oportunidades. Moh’d Bamatraf, 25, está me ajudando na tradução das entrevistas com figuras políticas aqui na cidade. Mas está, também, me mostrando uma das faces da revolução que passou pelo país em 2011 –a crença em dias melhores.

Bamatraf edita, sozinho, o site Aden Tribune (clique aqui), com notícias em inglês sobre a região e o Oriente Médio. Enquanto estuda os guias de estilo dos grandes veículos de comunicação, esse professor de inglês pratica a escrita do jornalismo em um trabalho por enquanto não remunerado. É modesto, e me diz que ainda não é “kamil” (“completo”, em árabe). Mas me explica a região como um analista político.

Enquanto o Iêmen discute sua estrutura política, durante diálogos na capital Sanaa, é difícil saber quem vai fazer parte do novo Estado pós-revolução. Mas sabemos, desde já, quem não quer ficar de fora.

O antigo porto de Áden. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Mercado de peixes em Áden. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
As montanhas de Áden, na Cratera. Crédito Diogo Bercito/Folhapress

Comentários

  1. Bom dia, Diogo.
    O link para o site Aden Tribune está quebrado…

    Abraços.
    – Alexandre

  2. Excelente série de artigos, Diogo, e ótimas fotos. É muito interessante ter uma visão mais íntima dos resultados que a Primavera Árabe trouxe à população iemenita. Espero que você desenvolva mais o assunto em seus próximos artigos.

  3. Boa tarde!!! É muito bom ler o blog, historias e notícias de terras distantes e pouco conhecidas de muitos!

  4. Diogo, ótimas suas reportagens sobre o Iemen. Só fiquei na dúvida se o país continua dividido ou não.
    Acho muito legal conhecer lugares que fogem a midia tradicional que só enfoca EUA, Londres e Israel.
    Seu blog merece Nota 10. Sou muito interessado no mundo árabe e até ja estive em quatro de seus paises em visitas rapidas de turismo.

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