Que língua é essa?

Yerushalaim, Urushalaim (Al Quds), Jerusalem

Sentado em um café no bairro de Nachlaot, chamo o garçom.

– Al salaam alaikum — Cumprimento ele. “A paz esteja convosco”.
– Wa alaikum al salaam — Ele me responde. “E convosco esteja a paz.

Deduzo, a partir desses cinco segundos de conversa, que ele fala árabe. Continuo meu pedido, um café, um bolo, um copo d’água. Ele ri e me diz:

– Desculpe, não estou entendendo nada. Sou israelense. Só sei cumprimentar em árabe. Mais nada.

Morro de vergonha e peço em inglês. Nem me atrevo a tentar o hebraico, depois do fora.

É uma situação recorrente aqui em Israel, entre os meandros de um Estado com duas línguas oficiais (hebraico, árabe), além do inglês como idioma franco.

Dou outros dois exemplos recentes.

Hoje cedo fui a Jerusalém Oriental para uma reunião com a representante de uma organização humanitária. Ela se chamava Nura, e desde o dia em que marcamos nossa conversa estive certo de que era uma mulher árabe –em que “nur” significa “luz”. Quando nos encontramos, me segurei para não começar a conversa com um “kif al hal” (“como está?”). Fiz bem. Ela era finlandesa, e me garantiu que, na Escandinávia, “Nura” é um nome comum.

No caminho de volta para minha casa, no trem, outra situação duvidosa. Um garoto sentado ao meu lado, usando o celular. Olho para a tela –coisas escritas em árabe. Olho de novo –coisas escritas em hebraico. Estou perto do meu ponto, preciso descer. O que digo para pedir passagem? “Slicha”, em hebraico? Ou “afak”, em árabe? Resolvo o dilema tocando no ombro dele e apontando para o corredor.

Pode parecer que esses relatos são sobre minhas experiências pessoas aqui em Jerusalém. De fato são. Mas isso não significa que a questão não tenha valor. Na verdade, esses causos cotidianos fazem parte de um núcleo comum do conflito, e eles servem de prisma para que possamos observar algumas questões latentes. Um exemplo trivial? As placas de trânsito, que apontam para a) Jerusalém, em letras latinas; b) Yerushalaim, em hebraico; e c) Urushalaim, em árabe.

Mas o que é Urushalaim? Que eu saiba, nada. Em árabe, entre parenteses, os sinais de trânsito dão a dica –Al Quds, o nome árabe de Jerusalém. “A sagrada”.

(Me parece que, em acadiano cuneiforme de por volta de 1300 a.C, há registros de uma cidade chamada Urushalim).

Esse foi o exemplo trivial. Vamos ao político –em 2011, o Knesset, o Parlamento israelense, debateu um projeto de lei para abolir o árabe como língua oficial de Israel, anulando o decreto do Mandato Britânico que, em 1922, estabeleceu as três línguas oficiais da região (o inglês foi suprimido, em seguida). A proposta já foi levantada neste ano, após a formação do novo governo, ainda que por enquanto apenas em discursos.

Nada indica que o projeto vá ser aprovado. Da última vez em que foi discutido, ele sofreu forte oposição de Tzipi Livni, atual ministra da Justiça. Mas o fato de que a ideia exista dá também indicações das preocupações que persistem e apontam para um Estado monocultural, em uma região justamente rica em variedade.

Comentários

  1. Diogo. Não esqueça do Russo! O idioma é falado por cerca de 800 mil pessoas em Israel.

  2. O hebraico, apesar das dificuldades, é a língua mais falada em Israel. Você pode até encontrar alguém que fale árabe também, ou inglês,o que é mais comum, mas a língua principal hoje é o hebraico.
    Fora de Jerusalém, é muito mais difícil que alguém fale árabe, apenas nas localidades onde a população é árabe, mas eles falam hebraico também.
    Aliás, o hebraico é a língua nascida nessa região, é natural que após ser revista e recuperada, seja a língua mais falada.

    1. Lá eles falam árabe, mas falam hebraico também e a comida é deliciosa.
      Se você for até lá, peça pouco porque as saladas são muitas e você ficará perdido com tantas delícias

  3. O interessante dessa cidade ( Jerusalem) é a pluralidade cultiral, religiosa e linguistica. Se suprimir o idioma árabe, perde o charme!

  4. Caro Diogo e colegas leitores e comentaristas, infelizmente de uns tempos para cá uma corja radical domina o discurso do Knesset, passando cada vez mais leis que cerceiam os direitos dos árabes e forçam o monoculturalismo. Esse projeto de eliminar a obrigatoriedade da língua árabe é um deles. Outros, infelizmente, foram aprovados e se tornaram lei, como alguns que cerceiam o direito à livre expressão no caso dessa expressão ser contrária ao governo.

    A força milenar de Jerusalém em particular e da região em geral está em seu caráter multicultural. Se os povos da região se unirem, se tornarão uma potência econômica com capacidade para enfrentar os EUA, a China e a Comunidade Européia de igual para igual. Mas a estes supra-citados interessa mais manter o conflito e a discórdia.

    1. Não existe corja radical que domina a knesset. Existem pessoas eleitas pelo povo, representantes da população. Essa é a regra da democracia e ela tem que ser respeitada.
      Apesar do árabe ser também língua oficial de Israel, ela só vai ser falada por árabes, que representam 20% da população, assim como os russos, já comentado acima, que representam também 20% da população.
      Na Universidade de Jerusalém existe curso de árabe, para aqueles que quiserem aprender. Então não cabe essa crítica.
      Não se trata de proibição de se falar o árabe ou ensinar árabe, isso seria burrice, o que não é absolutamente a marca do Estado de Israel.

      1. Marta, a turminha do Shas e do Yisrael Beiteinu, entre outros, são a corja a que me refiro. Sim, foram todos eleitos pelo povo, mas todo mundo sabe que políticos nunca agem como os representantes do povo que deveriam ser. O jogo político em Israel é igual ao de qualquer outro país, um toma-lá-dá-cá, eu voto a favor do seu se você votar a favor do meu. Assim, para a base do governo aprovar projetos de seu interesse, ela deve também apoiar algumas propostas mais radicais de partidos da extrema direita. Sem falar que para o primeiro-ministro se manter no poder ele precisa do apoio da maioria do Knesset. Na minha opinião, a reforma que instituiu eleições diretas para primeiro-ministro fortaleceu demais os partidos pequenos da ala radical.

        Quanto à língua árabe, que eu saiba é matéria obrigatória no currículo escolar de nível médio (não sei se no fundamental também). Não estou falando em proibição em se falar ou ensinar o árabe, mas justamente em se eliminar o caráter obrigatório desse ensino. Ao se aprender uma língua, se aprende também um pouco da cultura que a sustenta. E no caso do árabe, se acaba retirando um pouco da impessoalidade do rótulo “palestinos” ou “árabes”, impessoalidade essa que faz com que os israelenses os considerem como alienígenas, como “os outros”, e até como o inimigo, ao invés de enxergar um vizinho e um parceiro.

        Novamente, é claro que ninguém em sã consciência irá tentar proibir o uso e ensino da língua. Mas a tentativa de se eliminar o árabe como língua oficial tem como objetivo velado tentar extirpar parte da história do país e da região, e de negar aos cidadãos árabes de Israel uma já tênue via de identificação deles para com o país.

        Quanto à sua última frase, “[…] burrice, o que não é absolutamente a marca do Estado de Israel”, não sei não. Desde o trágico episódio da flotilha tenho cá minhas dúvidas a esse respeito…

    2. beto_w,CORJA sao aqueles que utilizam
      de atentados terroristas para conseguir
      uma independencia baseado em destruir
      Israel e seu povo.E lamentavel que voce
      morou aqui 1 ano,se e verdade,e nao aprendeu isto.Eu acho que voce nao sabe
      nada sobre nos e Israel.Israel e um Pais
      na sua essencia DEMOCRATICO,o que na
      sua maioria os Paises Arabes nao sao.

      1. Fabio, vamos com calma. Primeiro, sem argumentos ad hominem. Colocar em questão a veracidade da minha vivência em Israel não contribui em nada para o debate. E quando eu morei aí (faz mais de dez anos, a bem da verdade), eu também pensava assim como você, enxergava todos os palestinos como terroristas. Mas o mundo não é preto-e-branco, existem muitos tons de cinza no meio (e não estou falando de literatura erótica :-P). Nem todos os palestinos são terroristas, e nem todo israelense é bonzinho. Nós não somos os heróis do filme. Eu condeno todo e qualquer ataque terrorista, condeno qualquer morte de civis inocentes – não importa de que lado estejam.

        Israel é realmente em sua essência democrático, exceto para os palestinos, que vivem sob o controle e a opressão do exército e portanto do governo israelense mas não têm direito a voto, nem sequer cidadania israelense. O velho mantra da “única democracia do oriente médio” é bem discutível. Para começar, temos a Turquia, que já há tempos é uma democracia, bem como o Líbano, e até a Autoridade Palestina se vale de eleições democráticas para eleger seus governantes. Depois do advento da primavera árabe, tivemos instauradas democracias em outros países como o Egito e o Iêmen. Não coloco em questionamento o quão democráticos são de fato esses países, mas a democracia israelense não sobrevive a um olhar mais minucioso. Sim, em Israel existem parlamentares árabes, como Haneen Zoabi, que foi por várias vezes ofendida em plenário e acusada de traidora por participar da flotilha, e Ghaleb Majadele, qhe já teve água jogada na cara pela amalucada radical Anastasia Michaeli também em plena sessão do Knesset. Essas pessoas são sempre usadas como exemplo da democracia israelense, mas sua voz é sempre sufocada pela direita raivosa. E servem ao mesmo propósito que a comunidade judaica no Irã (que tem até uma cadeira reservada no parlamento iraniano, o que lhes confere em teoria uma representatividade bem acima do que seria proporcional em relação à população total do Irã) – são uma prova viva da “tolerância” e da “democracia”, mas na prática não têm poder nenhum.

        Isso sem falar na liberdade de expressão, que em Israel existe desde que não se defenda os direitos dos palestinos. Muitos que o tentaram fazer, ou que tentaram trazer à luz os episódios mais tenebrosos da história da fundação do país, foram ostracizados por seus pares e praticamente forçados a sair do país, como é o caso do historiador Ilan Pappé.

        Enfim, Israel é um país em sua essência democrático, mas que tem seus muitos defeitos. E isso em nada minimiza o sofrimento e a humilhação causados aos palestinos há décadas. Já que você mora aí, recomendo que visite a comunidade de Neve Shalom, na linha verde. Não sei se ainda existe, mas na época em que morei aí era uma comunidade exemplar onde jovens judeus e palestinos podiam conviver em paz, trocar experiências e debater livremente. Foi um dos lugares mais lindos e emocionantes que conheci no país.

        1. beto_w ,voce esta redondamente enganado.
          Ilan Pappe nao e referencia para NADA,e apenas um judeu com ideias antissemitas,
          para este tipo de doenca nao ha cura.
          Nao ha nenhuma humilhacao a Palestinos,
          e sim terrorismo praticados quase todos os dias em diferentes pontos do Pais. A maioria destes palestinos,e isto voce nao menciona,nao querem a cidadania israelense,sabia disto?Sabe porque? Porque eles perdem a boquinha de direito
          de refugiados,onde recebem uma “”mesada””,portanto beto ,se informe um
          pouco melhor antes de sair por ai escrevendo coisas que nao correspondem com a realidade.Cuidado.

          1. Olá, Fabio de Israel

            Ilan Pappé é um renomado historiador judeu israelense, que lecionava e tinha uma posição de destaque na Universidade de Haifa, até que se deparou nos anos 80 com documentos até então secretos sobre a época da independência de Israel, e começou a desconstruir a narrativa oficial da criação do estado. Por causa disso, ele foi alvo de campanha difamatória, com direito a membros do parlamento pedindo sua expulsão da universidade e uma campanha difamatória inclusive na grande mídia. Isso tudo o forçou largar o emprego e a sair do país. Hoje ele leciona na Exeter, no Reino Unido.

            Pappé não tem nenhuma idéia anti-semita, ele nunca professou ódio aos judeus. O que ele defende é que se revise os acontecimentos da época da independência levando em conta documentos que só vieram à tona 30 anos depois. A campanha de difamação contra ele e contra outros que também questionam a narrativa oficial é que lhes tachou o rótulo de judeus anti-semitas – um oximoro sem cabimento.

            Você disse que não há nenhuma humilhação a palestinos. Já que você está aí, por favor, vá passar uma tarde num dos tranquilos postos de controle na Cizjordânia. Ou então assista o documentário “Machsomim” (Checkpoint, em inglês – http://www.imdb.com/title/tt0391857/) do premiado diretor israelense Yoav Shamir. Isso é só a pontinha do proverbial iceberg. Tem até no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=R_N8-_ZNXbM .

            Você está certo, a maioria dos palestinos não quer cidadania israelense. Eles não querem ser cidadãos do país cujo exército os oprime diariamente há décadas. E Israel também não os quer, pelo temor de que isso iria acabar com o “caráter judaico” do país. Agora, dizer que eles não querem perder a “mesada” é tão ridículo e preconceituoso quanto dizer que os pobres do Brasil não querem melhorar de vida para não perder o bolsa-família.

            Enfim, você também pode se informar um pouco melhor antes de sair por aí escrevendo coisas que não correspondem com a realidade. Chazak Veematz.

      1. Fabio de Israel, eu já havia lhe pedido – sem argumentos ad-hominem. Questionar se eu sou ou não judeu não contribui em nada para o debate.

  5. Se abstraindo da dúvida dramática para se descer do trem. “Slicha”, em hebraico? Ou “afak”, em árabe? . Claro que, facilmente resolvível com um simples “please”.

    _”Na verdade, esses causos cotidianos fazem parte de um núcleo comum do conflito”_ .
    Uma afirmação que nos quer fazer crer que exista uma permanente tensão conflituosa no ar de Jerusálem. Nas ruas, nos transportes coletivos, nas placas de sinalização, nos espaços públicos etc…etc…
    Qual seja, o oposto de quem conhece Jerusálem e sua índole de pluriculturalidade religiosa, cultural e de etnias.
    Escolas árabes existem e não vão deixar de existir nunca. O árabe israelense fala hebraico por ser a língua dominante em Israel. Da mesma forma que os judeus mais velhos expulsos dos países árabes, igualmente o falam por afinidade cultural e de tradições .
    O que pode determinar a preponderância de uma língua sobre uma outra é a relação interpessoal entre os que vivem em uma determinada região e, principalmente as relações socio culturais e comerciais que intermeiam o meio em que vivem. Quanto maior o número de pessoas afins mais uma linguagem comum se estabelecerá entre elas.
    Israel é um Estado judaico com maioria de população israelense israelita, donde é de esperar que o hebraico seja a língua mais falada no país.
    O fato de se propor que se torne a única língua oficial não significa que por conta disto Israel se torne monocultural. Um país que acolheu pessoas de dezenas de países e de todos os continentes dificilmente cairá nesta armadilha do monoculturalismo.

    1. luiz,respondendo a sua pergunta no artigo anterior com certeza ainda mais por ser um nome na qual me orgulho em tê-lo mesmo sem ser judeu.

    2. Sua primeira frase me lembra uma coisa que um guia me disse uma vez. Ele disse que é engraçado que a expressão mais usada no hebraico, yala bye, é composta de uma palavra em árabe e uma em inglês.

  6. legal vc dizer tudo isso. sempre pensei dessa forma, mas nunca escrevi. acho q escrever o seu pessoal misturado ao que vc escreve importante para o leitor ver seu lado humano dentro da massaroca que é eretz – israel – sei lá como é em árabe.

    beijos,
    Ida

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