Preconceito

Colono israelense (à frente) e manifestantes palestinos durante confronto em Hebron, na Cisjordânia. Crédito Mussa Qawasma/Reuters

– ‘Inta muslim?

Me pergunta o palestino que acabei de conhecer na lotação rumo a Nablus, na Cisjordânia. Estou encarando todas essas viagens aos territórios palestinos como aulas imersivas de árabe dialetal. Então respondo, animado.

– La’. Masihi.

Não sou muçulmano. Sou cristão. Ele sorri.

– Masihi wa muslim…

Cristão e muçulmano… E esfrega um indicador no outro, como quem diz “são irmãos”. Ele continua:

– Bés, yehudi…

Mas judeu… Ele morde o indicador e faz cara de quem comeu e não gostou.

Desde que cheguei a Israel, há menos de um mês, tenho visto em todos os dias a cara horrorosa do preconceito. Seja ele de base histórica, seja por razão econômica, seja fruto da ocupação militar, seja devido a um receio existencial –tanto faz.

E comecei este relato descrevendo a visão de um palestino só porque é o fato mais recente, e não porque seja um fenômeno de via única. O preconceito, aqui, tem mão dupla.

Ainda não publiquei a história que tenho investigado nessa região da Cisjordânia, então não vou entrar nos detalhes. Mas no domingo ouvi um jovem que me disse que odeia árabes “porque eles sempre estão bêbados”.

Em um assentamento israelense em Jerusalém Oriental, um colono me diz que não faz compras no mercadinho árabe a cem metros de sua casa porque é hostilizado. Pega o carro e dirige por mais de um quilômetro todos os dias.

Já o dono do açougue na esquina, um palestino criado nos EUA, fica surpreso que eu lhe pergunte se os colonos compram carne na loja dele. “Não. Nunca.”

Não que qualquer desses relatos seja novo a vocês. Essas histórias estão nos jornais em todos os dias. Mas posso garantir que ver tudo isso acontecendo, e nas situações mais corriqueiras, como uma viagem de ônibus, dá um desamparo diante das dificuldades históricas que a região enfrenta há décadas.

O ônibus rumo a Nablus passa por uma área em que vivem colonos israelenses. Eles guardam suas posições, bem armados, vigiando quem passa pela rua. Meu colega de ônibus, que se chama Hamza e já passou dos 30, me cutuca e aponta para os judeus –com o dedão e o indicador levantados, imitando um revólver.

Eu me pergunto quanto tempo ainda falta para eu poder descer.

Comentários

  1. Diogo, No Brasil já ouvi a mesma frase “porque eles sempre estão bêbados”…só que a respeito de populações indígenas.

    Aguardo suas impressões sobre a Cidade de Nablus (tenho muito desejo de conhecer a cidade bíblica de Siquém).

  2. – Masihi wa muslim…

    Acho que você e esse muçulmano estão desinformados.

    Os cristãos estão sendo massacrados no mundo muçulmano.

    Exemplos não faltam. Mas naturalmente a mainstream media brasileira não reporta rigorosamente nada a respeito, afinal mostrar cristãos como vítimas é politicamente incorreto.

    http://www.christiannewswire.com/news/2065310942.html

    http://www.thereligionofpeace.com/Pages/ChristianAttacks.htm

    http://geoconger.wordpress.com/2013/01/21/105000-christians-murdered-for-the-faith-in-2012-the-church-of-england-newspaper-january-13-2013-p-6/

    http://www.worldwatchmonitor.org/english/country/turkey/4468/

  3. O exemplo do açougue não foi muito feliz. Você deveria saber que um judeu observante tem regras específicas de abate “kosher” e portanto não iria mesmo compra lá, não por hostilidade ou preconceito, mas porque tem que seguir estas regras.

    1. Fernando, bem observado. Mas imagino que poderiam comprar outros produtos na loja, que não vende só carne. O tom da resposta, e o contexto da apuração, apontavam mais na direção do conflito do que do kashrut. Obrigado e um abraço!

  4. As leis da Kasrut não envolvem sómente carnes. Alimentos Kosher industrializados, ou, não devem ter o selo do rabinato atestando sua condição de permissão ao uso. O acondicionamento e armazenamento de alimentos devem também ser fiscalizados para a venda. Portanto um judeu ortodoxo nunca comprará qualquer tipo de alimento perecível ou não, se não for num estabelecimento que siga estas regras. O bloguista se entrar num supermercado russo dentro da cidade de Jerusálem ( esta cidade como exemplo ) constatará que nunca um judeu que siga a Kasrut fará compras por lá.
    Já se for fazer uma feijoada, sugiro os citados mercados russos que ofertam carnes de porco e embutidos em quantidade e variedade maior do que as encontradas no Brasil

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