Etimologia em conflito

Criança durante confronto com forças de segurança, em Nablus, na sexta-feira; crédito Jaafar Ashtiyeh/AFP

Confesso que estou por fora dos últimos estudos sérios de línguas semíticas. Mas me lembro de, em alguma leitura passada, ter topado com o que parece ser a alguns autores uma etimologia da boa-vontade: dizer que Yerushalaim, nome hebraico de Jerusalém, significa “cidade da paz”. “Ir” significa “cidade”, “shalom” significa “paz”.

OK. Mas, ao que tudo indica, não é o caso. Na verdade, se bem me recordo da leitura do clássico “Semitic Languages — Outline of a Comparative Grammar” (E. Lipinski), a Bíblia da gramática semítica, os nomes de lugares nessa região são em geral herança de povos anteriores –portanto, difícil ter certeza do que significam.

Digo etimologia da boa-vontade porque parece ser um projeto de pensamento positivo, o tal “wishful thinking”. Afinal, Israel é uma terra de conflitos. Que não se engane quem pensa que o controle desta faixa estreita de terra é uma questão contemporânea, recente. Israel, Palestina –qualquer nome que se dê a esse espaço– é o local histórico de uma série de confrontos.

Assírios, babilônios, persas, gregos, romanos, bizantinos, para citar alguns dos povos que, antecedendo os otomanos, estiveram aqui antes de o Estado de Israel ser estabelecido no século 20.

Na semana passada, enquanto procurava histórias para contar na Cisjordânia, eu me vi no meio do conflito em si. Na entrada de Nablus, jovens empilhavam pneumáticos, punham fogo e se agachavam para pegar pedras nas mãos. As forças de segurança de Israel, em barricada, atiravam projéteis de gás lacrimogêneo.

Mais adiante, ainda na Cisjordânia, o motorista da lotação freou bruscamente –e o veículo parou entre um colono, à minha esquerda, apontando um revólver para uma criança palestina, à minha direita. Meus olhos se irritaram com o gás de lágrimas e, tossindo, agradeci ao motorista por sair dali imediatamente.

Procurei, depois, a notícia nas mídias local e internacional. Li relatos de conflitos no “Jerusalem Post” –mas como saber exatamente qual texto se referia ao confronto que eu tinha visto? Em que cantinho das estatísticas eu estava?

E como se importar, a essa altura, com a legitimidade de se “Yerushalaim” vem de “Ir Shalom” ou não –se já está claro que a paz, negociada há décadas com intermediação internacional, ainda não existe?

Comentários

    1. Complementando: Foi a partir de Göbleki Tepe, que os descendentes de Noé (Utnapisthim/Ziuzudra) começaram o repovoamento da Terra, Sem foi para Suméria, Can, para Canaã e Jafé para o Norte.

  1. Se supõe que de fato a midia não relata todos os fatos violentos da Cisjordânia, ai me preocupo por qual motivo seria, se por ter se tornado fatos corriqueiros do dia a dia, ou simplesmente por que não se importam mais? Espero que você possa traduzir esta rotina de forma a assegurar que ao menos as crianças possam ser protegidas pela ONU.

  2. Desculpe, mas o correto não seria línguas, povos, etc “semitas”? Semítico soa como uma tradução direta do inglês.

    Abraço,
    AC

    1. Caro André, para lhe responder melhor, dei uma olhada no dicionário Houaiss. Pelo que entendo, os dois termos têm igual validade. “Semita” é “relativo ao grupo étnico e linguístico ao qual se atribui Sem como ancestral”. “Semítico” é o “relativo ou pertencente aos semitas” ou, para a linguística, “o ramo da família camito-semítica de línguas”. Ambos os termos têm registro no século 19.

      Um abraço e obrigado pela questão!

  3. Diogo, gostei de sua maneira de contextualizar. Bom foco, boa amarração. Texto congruente, proporcional. Bom trabalho! Obrigado e saudações.

  4. Foto interessante.

    Passa a impressão de que um menino palestino indefeso está fugindo, tentando salvar sua vida, de uma horda de soldados israelenses armados até os dentes.

    Nada mais falso…

    1. Tem razão. Essa foto deve ser algum trabalho de photoshop. Na verdade era o menino que estava armado até os dentes, avançando contra os 8 israelenses indefesos portando pombas da paz : )

      1. JAAFAR ASHTIYEH / AFP, esta agência de notícias especializada em fotojornalismo é especializada em fotos “pallywoodianas”. Sempre com palestinos convenientemente em condições de inferioridade, aparentando mormente como atacados e não como agressores. A última desmascaração feita há uma semana, diz respeito a foto de um pai palestino com o filho morto nos braços e culpando o IDF pela morte do mesmo. A mídia internacional reproduziu a foto mundo afora como fato idôneo. Hoje já se sabe que o menino foi assassinado por um morteiro do Hamas que caiu em Gaza em área palestina.

  5. “Na semana passada, enquanto “procurava” histórias para contar na Cisjordânia, eu me vi no meio do conflito em si. Na entrada de Nablus, jovens empilhavam pneumáticos, punham fogo e se agachavam para pegar pedras nas mãos”.
    De Jerusálem para Nablus se vai quando conflitos ocorrem, não à toa, do nada. Jovens jogam pedras em soldados; não somente se agacham para pega-las. E, “gran finale”, o velho cliche do revolver apontado para a criança palestina.
    “Se já está claro que a paz, negociada há décadas com intermediação internacional, ainda não existe? Descoberta de gênio !!
    Vamos sentir saudades do predecessor.

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  7. Diogo, Eu li em algum lugar que o nome de Jerusalém poderia derivar de uma divindade cananeia (Shalim)…

  8. O aluno e bloguista Diogo Bercito antes de ficar caçando locais e notícias que deliciam os que querem demonizar Israel, deveria ter em mente com quem os israelenses convivem em suas fronteiras próximas e seus pensamentos :
    Pode parecer cruel reivindicar que o Hamas queira que os seus próprios filhos sejam mortos como parte de sua estratégia de demonizar Israel. Mas não há como escapar da realidade e da verdade deste fenômeno.
    Na verdade, tem sido admitida por líderes do Hamas, como Fathi Hammad:
    “Para o povo palestino, a morte tornou-se uma indústria, em que as mulheres se destacam, bem como todas as pessoas que vivem nesta terra. Os idosos são excelentes para isso, e assim fazem os mujahideen e os filhos. É por isso que eles formam escudos humanos das mulheres, das crianças, dos idosos, e os mujahideen, a fim de desafiar o exército sionista. É como se estivessem dizendo ao inimigo sionista: “Nós desejamos a morte como vocês desejam a vida. ‘”

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