Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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O dia em que um israelense assassinou seu premiê

Por Diogo Bercito
Rabin (à esq.), Bill Clinton e Yasser Arafat em seu aperto de mãos histórico

Acabo de ler uma excelente análise sobre o ex-premiê israelense Yitzhak Rabin, assassinado há exatos 18 anos, em 4 de novembro de 1995. O texto foi publicado pelos amigos do Conexão Israel, projeto de brasileiros que, após imigrar, moram hoje no Estado de Israel. Cliquem aqui para ler o original, que comento a seguir.

O autor, João Miragaya, insiste na importância de nos lembramos do assassinato de Rabin –não como um fato consumado, mas como uma lição ao porvir. De maneira que, me parece, o artigo analisa a morte do premiê israelense para além da história em si, concentrando-se também nas circunstâncias históricas que permitiram a um cidadão atropelar a democracia e interromper um processo de paz, um governo e uma vida.

Miragaya argumenta que, em um momento histórico semelhante, temos o dever de manter viva a lembrança da morte de Rabin. “Parece que não aprendemos muito com o caso ocorrido”, diz, antes de elencar uma série de personagens políticos que, em 1995, ajudaram a criar o ambiente macabro que levou ao israelense Yigal Amir a assassinar seu próprio premiê.

“Um só dedo puxou o gatilho, mas muitas vozes de incentivo o ajudaram a tomar essa decisão”, escreve Miragaya. Entre eles o rabino Chanan Porat, que afirmara “não estamos dispostos a continuar a jogar pelas regras do jogo democrático”. Ou o rabino Menachem Felix, que dissera que “o atual regime não tem maioria judaica no Parlamento para retificar a rendição [à autoridade palestina]”. Ou ainda o rabino Shlomo Goren, que instituíra como lei religiosa o dever de soldados a desobedecer ordens para demolir os assentamentos judaicos nos territórios ocupados.

[…] ainda em 1993, o então líder da oposição Binyamin Netanyahu aprovou uma declaração da oposição que afirmava: “O povo se ergue contra a traição do governo Rabin”. O atual premiê não parou por aí: fez discursos inflamados a frente de cartazes com fotos de Rabin trajando uniformes de terroristas árabes, faixas com a inscrição “Morte a Arafat” e clamou o povo a derrubar Rabin e Peres antes das eleições.

A imagem de Rabin como “traidor” e “nazista” não é acidental, segundo Miragaya, já que são essas as acusações que culminam na pena de morte, em Israel. “Essas ações, no mínimo irresponsáveis, têm sua parcela de responsabilidade pelo assassinato de Rabin”. Assim como é preocupante o atual assédio a Tzipi Livni, ministra da Justiça da Israel, vítima de ataques por ser vista como responsável pela soltura de prisioneiros palestinos durante as tramitações da negociação de paz entre israelenses e palestinos –repetindo “a postura que culminaria no assassinato de Rabin”.

O premiê israelense assassinado em 1995 havia sido eleito em 1992. Vou recorrer ao excelente livro “The Arabs: A History”, de Eugene Rogan, para dizer que “a reputação de Rabin como o homem que havia autorizado violência física contra manifestantes da Intifada deu aos negociadores palestinos pouca esperança de que ‘Rabin o quebra-ossos‘ pudesse se tornar ‘Rabin o pacificador’.”

A história provou o contrário. Em 1993, o primeiro-ministro israelense assinou os Acordos de Oslo, que previam então que cinco anos depois houvesse uma solução definitiva para a chaga do conflito árabe-israelense no Oriente Médio, já naquela época velho e violento demais. Os acordos assinados por Rabin mudaram o jogo, aproximando Israel de seus vizinhos e estabelecendo os marcos legais para um futuro pacífico na região –até a persistência dos assentamentos, do terrorismo e da retórica negativa.

Em 4 de novembro, Rabin realizou uma passeata pela paz, em Tel Aviv, dizendo aos presentes que “a nação de Israel quer paz, apoia a paz”. Nem todos, escreve Rogan:

Um homem foi à passeata para encerrar o processo de paz. Enquanto Rabin era escoltado do pódio de volta a seu carro, um estudante de lei israelense chamado Yigal Amir entrou por uma fresta no cordão de segurança e atirou no primeiro-ministro. Em seu julgamento, Amir confessou abertamente o assassinato, explicando que havia matado Rabin para interromper o processo de paz. Convencido do direito divino do povo judaico por toda a terra de Israel, Amir acreditava em seu dever como judeu religioso em prevenir qualquer troca de terra por paz.

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