Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Há cem anos, a Síria pedia ajuda aos EUA

Por Diogo Bercito
Faysal, que sonhava em ser rei dos árabes, em foto de 1919. Atrás dele, o segundo da direita para a esquerda é o lendário “Lawrence das Arábias”. Crédito Reprodução.

Este relato poderia ter diversos títulos, além daquele que eu de fato escolhi. Por exemplo, “A Síria que não foi, mas poderia ter sido”. Ou “Na Síria, o pecado original se chama Versalhes”. Ainda, “Como guerra civil, nasci há cem anos”.

Me perdoem a poesia. Mas, ignorante em história síria, me surpreendi ontem à noite ao ler uma história em que não devo ter prestado tanta atenção enquanto estive na universidade –a narrativa dos debates do Congresso Nacional Sírio. Redescobrir o ano de 1919 e voltar a pensar em como os Estados nacionais do Oriente Médio foram criados teve, para mim, um quê de epifania. Os leitores que já conhecem a história podem se enfastiar. Mas os demais talvez dividam comigo a linha de pensamento que se preocupa, hoje, em entender qual é a raiz histórica para a crise na Síria, em que mais de 100 mil pessoas já foram mortas.

Eu havia perguntado ao historiador Jonathan Berkey, do Davidson College, qual poderia ter sido a alternativa para a criação da Síria após a Primeira Guerra Mundial. Afinal, as regiões que hoje conhecemos como Síria, Líbano, Israel e os territórios palestinos vinham sendo parte durante quatro séculos do Império Otomano. Não havia, ali, a ideia de Estados como entendemos hoje. A resposta dele: bem, havia outra opção. O relatório da comissão King-Crane (que vocês podem ler aqui, na íntegra).

Terminada a guerra e desfarelado o Império Otomano, os impérios europeus, em especial o britânico, tiveram de lidar com uma série de acordos firmados em relação aos territórios agora em disputa no Oriente Médio. Por exemplo, uma série de cartas trocadas com Sharif Husayn ibn Ali, de Meca, estipulavam a criação do Estado da Grande Síria, tradicionalmente conhecido em árabe como “Bilad al-Sham” (os atuais Líbano, Síria e Israel, grosso modo). Uma declaração feita a líderes sionistas, porém, também dava garantias para a criação de um Estado judaico (o famoso dito de Balfour). Havia, ainda, o comprometimento estabelecido com a França de entregar-lhe parte dos territórios do falecido projeto turco-otomano.

A coincidência de tratados sobre um mesmo trecho do mapa-múndi causou constrangimento à época. Foi quando, enquanto potências debatiam como dividiriam o globo entre si, em Versalhes, os Estados Unidos propuseram a criação da comissão King-Crane, que estabeleceria –após uma longa viagem ao redor da região, reunindo-se com as populações regionais– a melhor maneira de satisfazer as ambições de autodeterminação dos árabes.

Um grupo de representantes de diversos grupos ao redor da Grande Síria reuniu-se no Congresso Nacional Sírio e apresentou aos enviados de King-Crane, em 2 de julho, um relatório com suas reivindicações. Dou aqui a palavra ao historiador Eugene Rogan, de Oxford, com quem também conversei recentemente a respeito desse assunto. Em sua obra “The Arabs: A History”, ele escreve que “Os delegados […] demandaram completa independência política para a Síria com fronteiras geográficas separando-a de Turquia, Iraque, Najd, Hijaz e Egito. Eles queriam que o país fosse regido por uma monarquia constitucional, com Amr Faysal como seu rei”.

O relatório King-Crane, caso vocês se deem ao trabalho de ler, inclui o documento entregue pela delegação síria. Em um trecho, está dito que:

Desejando que nosso país não seja presa de colonização e acreditando que a nação americana é a mais distante de qualquer pensamento colonizatório e não tem ambição política em nosso país, vamos procurar assistência técnica e econômica dos Estados Unidos da América, desde que tal assistência não supere 20 anos.

Os desejos da Grande Síria e o relatório norte-americano, produzido no furor da fantasia da autodeterminação, foram no entanto ignorados pelas potências imperiais europeias, que já tinham, à época da entrega de King-Crane, decidido o futuro do Oriente Médio. O que hoje entendemos por Líbano e Síria passaram ao controle francês. Iraque e atual Israel foram comandados pelo Reino Unido. Assim, com linhas traçadas a esmo na areia, povos aliados foram divididos pelas mesmas fronteiras que uniram inimigos. A história, a partir daqui, é o conjunto dos relatos da ocupação, da independência e da ditadura. A Síria moderna, assim como o Iraque, é uma das vítimas de 1919.

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