Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Ufa, ele não é muçulmano

Por Diogo Bercito
Forças policiais chegam ao local do tiroteio em Washington. Crédito Jason Reed/Reuters

Primeiras horas depois da notícia de um tiroteio nos EUA. As informações ainda são contraditórias. Mas, em algum momento, alguém se pergunta, ainda que em voz baixa –o autor é muçulmano? Não só porque depois dos atentados de 11 de Setembro o estereótipo ficou solidificado, mas também porque, nas atuais circunstâncias, um ataque realizado por um muçulmano teria diversas consequências políticas.

Quando foram divulgadas as primeiras notícias do ataque de ontem na capital norte-americana, as implicações pareciam sérias. Houve 13 vítimas no atentado à região do quartel-general da Marinha dos EUA. Mesmo com as autoridades desde cedo afirmando não haver indícios de ser uma ação terrorista, as informações preocupavam. Os Estados Unidos têm ameaçado, nas últimas semanas, realizar uma intervenção militar na Síria. Navios de guerra foram posicionados no Mediterrâneo. Um revide de grupos extremistas não seria uma consequência inesperada, ainda mais contra as forças marinhas.

Além disso, na semana passada o atual líder da Al Qaeda, Ayman al-Zawahiri, havia pedido que seus seguidores realizassem uma série de pequenos ataques aos Estados Unidos de modo a “sangrar” a economia americana, obrigando a administração do presidente Barack Obama a manter altos gastos em segurança.

Então a notícia –Aaron Alexis, suspeito pelo tiroteio em Washington D.C., era budista. Alguém ironizou há pouco no Twitter que agora especialistas vão tentar encontrar relações entre o budismo e o terrorismo, o que seria curioso, já que essa crença oriental é em geral associada à paz. A história me lembra dois momentos da minha infância no Brasil: primeiro, quando eu era pequeno e a discussão moral era sobre se a prática do judô fazia as crianças mais violentas; depois, a vítima foi o videogame, associado aos tiroteios de Columbine.

Já discutimos esse assunto por aqui, mas acho que é do interesse regional no Oriente Médio entender quais são as relações entre o islamismo e o extremismo, se houver alguma. Eu em geral desconfio dessa interpretação, principalmente a partir do conhecimento histórico. Há uma má-vontade em relação a muçulmanos que é, devemos entender, quase hereditária –como o antissemitismo. Fruto, é claro, dos séculos de embate entre cristãos e muçulmanos, na ocupação da península Ibérica e também dos conflitos na tentativa frustrada de conquistar os territórios da Terra Santa, durante as Cruzadas. É desse período a visão cristã que associa, por exemplo, o profeta Maomé a inclinações satânicas que não lhe eram características.

Da mesma maneira, um amigo espanhol me disse outro dia que, na península Ibérica, as mães pedem aos filhos que se comportem –caso contrário, “Herodes vai te pegar”. A referência é um dos reis mais importantes da história judaica, responsável pela reforma do templo sagrado de Jerusalém. Em português, notem que dizemos que fulano “judia” de alguém (ou seja, de acordo com o Aurélio, trata como trataria um judeu).

Judeus, como sabemos, não perseguem crianças. Assim como muçulmanos não são naturalmente terroristas ou mesmo extremistas. Não acredito que a resposta para essa questão esteja na religião em si, mas talvez em sua interpretação –e certamente na noção teológica de “unidade” que torna tão difícil a separação entre Igreja e Estado em sociedades islâmicas.

Há preconceito até mesmo na análise histórica, que por décadas creditou a expansão islâmica no século 7 a um fervor religioso, que teria levado a crença dos muçulmanos “na ponta da lança”. Essa ideia já é largamente descreditada na academia, já que a ideia em voga naquele período era, na verdade, de que o islamismo só servia aos árabes –nas palavras dos primeiros califas.

A sociedade ocidental costuma se gabar de suas liberdades. Elas em geral são reais. Mas nem sempre são democráticas, no sentido da abrangência. Ontem, ao telefone com um escritor marroquino, me ocorreu que talvez nós tenhamos responsabilidades em relação a essa situação. Ele me contava sobre seus primeiros dias em Genebra, após emigrar de uma vida repressiva no Marrocos. “Percebi que teria de reinventar minha liberdade”, ele me disse. Porque viu, chegando à Europa, que ele também não poderia ser livre ali. Para os suíços, ele era mais um terrorista.

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