Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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O dia em que Jerusalém fechou

Por Diogo Bercito
Pintura do século 19 mostra orações de Yom Kippur em sinagoga austríaca. Crédito Reprodução

Antes de tudo, desejo aos leitores judeus um sincero צוֹם קַל –em português, fácil jejum. Espero que a discussão abaixo seja encarada pelo que é, um debate, e não uma crítica intolerante.

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Israel se prepara para, nas próximas horas, entrar em um de seus dias mais sagrados, o Yom Kippur –ou, em português, Dia do Perdão. Vai ser minha primeira experiência nessa data, dentro do país, e estou ansioso. Não pelo significado religioso, já que, como alguns de meus leitores gostam de apontar, não sou judeu. A curiosidade é em relação a como Jerusalém vai se transformar, em termos urbanos, de agora até sábado (14) à noite.

Alguns amigos israelenses têm me contado histórias de Yom Kippur como quem fala do bicho papão. Fui orientado a estocar comida, já que as lojas fecham por volta do meio dia. Restaurantes não abrem. Apesar de não ser proibido, andar de carro é visto como desrespeitoso, assim como comer em público. O espaço aéreo será fechado a partir das 13h30. Em pânico pela possibilidade de me esquecer de alguma das recomendações, vou me trancar em casa e fazer uma maratona de “O Senhor dos Anéis” com alguns colegas jornalistas.

O Yom Kippur é, grosso modo, o dia em que judeus pedem perdão. A Deus, à família, aos amigos. Me parece que, em hebraico, “kippur” está mais ligado a “expiação” do que “perdão”, então imagino que a tradução corrente em português não seja exata. O Yom Kippur, e os dias que antecedem a data, é marcado por orações de “selichot” (de “slicha”, perdão) e por uma atmosfera religiosa ao redor do país. Do pôr-do-sol de hoje até o começo da noite de amanhã, é necessário fazer jejum. Convido os leitores mais bem informados para completar essas informações.

A ideia de escrever este relato, porém, é pela perspectiva de um não judeu –ou, em outras palavras, pelo espanto de um estrangeiro diante da imposição de um calendário religioso sobre toda a população. Não consigo pensar em outro exemplo de Estado, ao menos no mundo ocidental, que obriga todos os comércios a fechar em um determinado dia. Tampouco conheço, e pode ser por ignorância minha, um país em que um feriado sagrado é impositivo. Eu morava no Marrocos durante o Eid al-Adha do ano passado, dia mais sagrado do islamismo, e não me lembro de ter tido qualquer dificuldade além de respirar o cheiro das carcaças das ovelhas sacrificadas.

Mas, é claro, as reclamações de um jornalista ocidental sempre vão parecer exageradas. O que não pode parecer demasiado, porém, é a indignação da população local árabe. A entrada e saída à Cisjordânia, território ocupado por Israel desde a Guerra dos Seis Dias (1967), foi fechada por 48 horas. O que significa que um palestino não pode vir a Jerusalém para sua reza ritual de sexta-feira, por exemplo. Até porque os arredores da cidade antiga de Jerusalém, onde está a mesquita de Al-Aqsa, a terceira mais sagrada para o islamismo, terão uma série de bloqueios. Há forças de segurança de prontidão.

O Yom Kippur parece ser o ápice, aqui, do conflito entre a população religiosa e a secular, inclusive judaica. Longe de mim dizer a um Estado, principalmente um pouco receptivo a críticas, como lidar com seu calendário. Mas deixo a dúvida aqui, com o pedido de que os leitores mantenham o respeito uns aos outros, sob a pena de serem moderados –a imposição do Dia do Perdão é, com o perdão do trocadilho, perdoável?

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