Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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A pior entrevista da história –recente

Por Diogo Bercito

A revista “Slate” nota, em sua reportagem (leia aqui), que a competição é acirrada. Mas um vídeo veiculado recentemente pela Fox News pode vir a liderar a lista de entrevistas mais constrangedoras de que conseguimos nos recordar.

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Trata-se da conversa entre a âncora Lauren Green e o acadêmico Reza Aslan, por ocasião do livro “Zealot: The Life and Times of Jesus of Nazareth”, baseado em uma extensa pesquisa histórica a respeito do início do cristianismo.

Alguns leitores têm notado haver, neste Orientalíssimo blog, uma atenção frequente à islamofobia. Mas, ao ver este vídeo após sugestão de um talentoso colega, não pude deixar de voltar a pensar em como o mundo pós 11 de Setembro é um lugar complicado para alguém ser muçulmano.

Eu poderia citar exemplos pessoais. Estive ao redor de toda a região, e ouvi até mesmo de amigos afirmações que são, além de odiosas, simplesmente historicamente incorretas. Frases que começam com “os muçulmanos sempre…” ou “todos os muçulmanos…” me dão arrepios –assim como tenho pavor de antissemitismo ou, para além desse assunto, outras modalidades de preconceito, incluindo a homofobia e a misoginia.

Mas vou aproveitar a entrevista de Reza Aslan para fazer da imagem um exemplo concreto. Basta notar que a jornalista não está interessada no conteúdo intelectual do livro ou na discussão histórica. A primeira pergunta que faz ao acadêmico é –por que um muçulmano decidiria escrever sobre o fundador do cristianismo?

A má vontade da entrevistadora fica mais evidente perto do final do vídeo, quando ela nota que é desleal Aslan não informar ser muçulmano, para que o leitor saiba que ele tem uma agenda oculta por trás da publicação. Ao que ele responde, constrangido, que a informação de que ele segue o islã está na segunda página do livro. Além disso, ele é um conhecido estudioso do islamismo, de maneira que não entende onde está a deslealdade.

Até porque não faz sentido, por mais que eu tente entender, o argumento de que um muçulmano não está apto por definição a estudar o cristianismo, em qualquer esfera que seja. Assim, há de se esclarecer em algum momento de que maneira Lauren Green se preparou para essa entrevista e com que pré-concepções.

Mais grave ainda é, como nota a “Slate”, a campanha anti-islâmica que está sendo promovida contra o autor, que foi chamado por Pamela Geller de “maligno membro jihadista”. Avaliações feitas ao livro dele no site Amazon.com notam que Aslan “é muçulmano, e não historiador” –mas onde é que está o paradoxo?

A islamofobia é uma questão que parece ser cada vez mais central para a história do Oriente Médio. Mais importante ainda é toda a aura de mistério que parece nunca se dissipar do entorno do islamismo. As fantasias dos orientalistas, os preconceitos dos xenófobos, e agora o temor e o desconhecimento que vieram na sequência dos atentados de 11 de Setembro e da Guerra ao Terror.

Os leitores talvez consigam me ajudar a entender –a que serve a desinformação, nesse caso?

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