Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Dois jovens brasileiros, Jerusalém e a esperança

Por Diogo Bercito

O Orientalíssimo publica hoje a segunda e última parte da colaboração deste blog com os alunos da escola paulistana Peretz. O primeiro texto (leia aqui), sobre a viagem dos estudantes à Polônia, rendeu dezenas de comentários e uma longa discussão –nem sempre educada, o que me obrigou a mediar a participação dos leitores– sobre o Holocausto.

Desta vez, os alunos Gabriel Goldenstein e Renata Grubman Neves assinam um texto sobre a visita da turma a Israel.

Em respeito à religião de ambos os colaboradores, mantive a grafia que eles utilizaram para se referir a Deus (“D’us”), a partir da noção judaica de que o nome divino não deve ser utilizado em vão.

***

A sensação de chegar em Israel é incrível. É sentir-se em casa. Israel, um país tão pequeno, com uma diversidade tão grande, tanto de povos como de ambientes –tudo isso nos aproxima cada vez mais de D’us e da religião.

Chegando da Polônia, parecia que estávamos passando por tudo pelo que os poucos judeus da época passaram ao ver a liberdade.

Começamos a viagem pelo deserto do Neguev, o que fez com que todos pensassem em como um país tão pequeno pode ter tantos diferentes espaços. Seguindo a viagem, e vendo essa grande diversidade, fizemos uma parada de uma noite em uma tenda beduína, onde conseguimos conhecer um pouco desta cultura, andando de camelo e dormindo em tendas típicas.

Subindo em direção a Jerusalém, vimos a paisagem mudar. Passamos, primeiro, por Massada, uma cidade no alto de uma montanha, último refúgio dos judeus para se protegerem dos romanos na época de Herodes. Também visitamos o mar Morto. Após conhecer todos esses lugares, finalmente chegamos ao ponto mais esperado, Jerusalém, onde fizemos uma parada que aproximou cada um de nós de D’us: o famoso Kotel (Muro das Lamentações). Ali, todos seguiram a crença nos bilhetinhos, deixando seus recados para D’us.

Estar diante do Muro das Lamentações em Tisha Be’Av (dia no calendário judaico que marca a destruição dos dois Templos) fez todos sentirem a tristeza que foi para os judeus da época.

O que achamos mais mágico em Jerusalém foi que esse é um lugar sagrado para todos. Apesar das disputas, Jerusalém é onde conseguimos ver também a coexistência dos povos que vivem em Israel. Poder estar nesses lugares e passar por momentos únicos com a turma com que convivemos desde pequenos fez tudo se tornar ainda mais importante.

Então seguimos a viagem para o norte, em direção a Tiberias, passando por diversos pontos em que a natureza predomina. Começamos pelo rio Jordão, vendo a fronteira com a Jordânia e a grande vegetação. Depois, visitamos Rosh Hanikrá e vimos o mar Mediterrâneo e a fronteira com o Líbano. Fizemos, em seguida, um passeio de barco pelo Kineret (mar da Galileia), tendo ao fundo as fronteiras de Israel com a Síria e com a Jordânia. Por fim, subimos no Har Bental (monte Bental), nas colinas de Golã.

A passagem pela Polônia nos fez mudar muito. Quando estávamos em Jerusalém, fomos ao Yad Vashem, o Museu do Holocausto, um dos lugares mais importantes. Ali, vimos mais uma vez que temos que ter esperança sempre. O caminho feito pelo museu, obrigando o visitante a passar por todos os espaços cronologicamente, faz você se sentir no começo sufocado –como os judeus da época. Mas, no final, há um espaço aberto com a vista para a cidade de Jerusalém, simbolizando a esperança que os judeus tinham e que têm de manter.

Viajando por todos os lugares estudados, nos lembrando das aulas junto com os amigos, foi uma das melhores experiências para nós. Chegando em Tel Aviv, no momento final, todos já estavam ficando com saudades da viagem. Agora nos olhamos com outros olhos, todos maduros. Agora podemos ter a certeza de que cada um vai ser uma pessoa diferente. Depois de passar por tudo o que passamos, não há como não mudar.

Todos agora cansados se preparando para chegar em casa, mas com a certeza de que, no fundo, queríamos ficar nesta terra e para cá nós vamos voltar.

Leshana habaá b’Yerushalaim –no ano que vem em Jerusalém.

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