Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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O Holocausto, uma estudante e o tempo

Por Diogo Bercito
Alunos de ensino médio durante viagem em Israel. Crédito Arquivo Pessoal

Nas últimas semanas, 28 alunos do ensino médio do colégio paulistano Peretz participaram de um projeto pedagógico que inclui visitar a Polônia e Israel, enquanto estudam as circunstâncias do Holocausto –em que 6 milhões de judeus foram mortos, na Europa.

A convite da Folha, a aluna Jessica Esquenazi Hollander escreveu seu relato sobre a passagem pelos campos de concentração na Polônia. “Levo comigo, como parte de minha missão de vida, garantir que o Holocausto nunca seja esquecido”, diz. “Não porque as vítimas eram judeus, mas porque eram seres humanos, como nós.”

Segue, abaixo, o texto da estudante.

***

SEPARADOS PELO TEMPO

“Esquecer um holocausto é como matar novamente.”

O pensamento de Ellie Wiesel, vencedor do prêmio Nobel da Paz e sobrevivente do Holocausto, resume muito bem o objetivo desta viagem: lembrar. Não digo somente lembrar o Holocausto, mas também a rica vida judaica que foi apagada da Polônia pelo regime nazista, entre 1933 e 1945. Enquanto víamos, sentíamos e tentávamos nos colocar nos mesmos sapatos das vítimas da “Shoá” (Holocausto), tive uma forte sensação de que o tempo é o único fator que separa minha experiência daquela pela qual passaram não somente os judeus, mas também outras minorias escolhidas como alvo do regime nazista.

Os campos de concentração são lugares desumanos que estão fora de nosso alcance de entendimento, graças às condições de vida nas quais vivemos hoje em dia no Brasil. Tentar entender o que significava na época viver em um campo é como tentar enxergar uma cor que não existe.

Quando estudamos o comportamento de pessoas envolvidas com os campos, não somente os prisioneiros mas também os soldados, não podemos explicar, julgar ou pensar que entendemos os motivos pelos quais atos tão desumanos foram cometidos.

A coisa mais preciosa que os prisioneiros tem de aprender a viver sem, após entrarem nos campos, é a sua identidade. Os prisioneiros perderam suas roupas, seus cabelos, suas famílias e a possibilidade de exercer sua função.

As mulheres de certa maneira deixaram de se sentir mulheres, pois o corpo era corpo fraco demais para menstruar. Os homens, sem a dignidade masculina, se tornaram apenas almas vagando, tentando sobreviver.

Algo que também torturava as almas prisioneiras era o arame farpado que cercava o campo. O arame era uma espécie de símbolo da perda de liberdade. Uma cerca de arame farpado, pela qual os prisioneiros podem admirar a vida do lado de fora sonhando com a tão impossível liberdade, apesar de estar diante de seus olhos, é muito cruel em comparação com um muro alto, que não dá aos prisioneiros a esperança de alcançar o outro lado.

Sem seus bens materiais, sem a possibilidade de exercer atividades de lazer e sem suas famílias, era um desafio não perder a própria identidade. Sem uma identidade, sem se ver diferente dos outros, sem ter o conforto de saber que você possui uma mente criativa — esse é o principal motivo pelo qual os campos eram tão desumanos. Mas aqueles que, mesmo perdendo tudo, conseguiram preservar a si mesmo, ao seu orgulho e a sua identidade tiveram o que era necessário para sobreviver e contar a história.

Antes de viajar, eu estava em pânico. Eu tinha medo de visitar os campos e caminhar por um local onde anos atrás milhares de pessoas eram assassinadas todos os dias. Eu me perguntava como iria reagir às histórias, aos fatos e às cenas.  Mas tenho que admitir que teria me arrependido de não vir. Foi uma experiência para a vida.

Eu imaginava que esta viagem me mudaria. Que eu me tornaria uma pessoa diferente depois do que vi. Agora posso dizer que não, não mudei. Eu cresci. Algo ainda mais valioso. Ao contrário do que eu esperava, não consegui entender como era a vida nos campos de concentração. Concluí que não é possível entender, mas apenas sentir a angústia e a energia negativa que permanecem nos campos mesmo que já se passaram décadas desde de o último ato de crueldade.

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