Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Ó, Jerusalém

Por Diogo Bercito

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Ofra Haza canta “Yerushalaim Shel Zahav” (Jerusalém de Ouro), composta para celebrar a “reunificação” de Jerusalém

O salmo é conhecido de cor, por aqui. De número 137, diz que “se eu me esquecer de ti, Jerusalém, esqueça-se a minha mão direita de sua destreza. Apegue-se-me a língua ao céu da boca”.

Eu não corro esse risco. Estive aqui em 2008, em minha primeira viagem no Oriente Médio, e deixei um papelzinho no Muro das Lamentações pedindo para voltar um dia –estava apaixonado pelas muralhas de Solimão, pelo incenso do Santo Sepulcro, pela imagem mental dos Exércitos de impérios marchando rumo a essa cidade –Jerusalém. Nunca me esqueci dela.

Hoje, a cidade dita sagrada comemora seu dia de “libertação”. Iom Yerushalaim, em hebraico, marcando a polêmica “reunificação” da cidade, tomada durante a guerra de 1967. Ela tornou-se, para Israel, sua capital “indivisível”. Para a comunidade internacional, um território ocupado –as embaixadas estão em Tel Aviv.

Indivisível, no entanto, é um adjetivo pouco adequado a Jerusalém, como notam diversos dos textos a respeito do Iom Yerushalaim publicados na mídia israelense hoje. Meir Margalit, membro do conselho municipal, escreve no “Haaretz” que os “fossos de Jerusalém não podem ser escondidos”.

“Não é uma questão de divisão física, porém mais mental, cultural e emocional. É intensificada quando um árabe cruza a linha entre as duas partes da cidade e a polícia de fronteira ou mulheres soldados bruscamente pedem sua identidade, perguntam de onde ele vem e para onde está indo”

Indivisível, mas está dividida entre Jerusalém Oriental, predominantemente árabe, e Jerusalém Ocidental, predominantemente judaica (onde moro). Cruzar as linhas imaginárias de divisão inclui mudar a arquitetura, o “mindset”, os rostos e as condições de vida.

Margalit nota que, enquanto palestinos constituem 38% da população jerosolimita, eles recebem entre 11% e 13% do Orçamento municipal, com investimento “mínimo previsto por lei, especialmente em salários para professores, trabalhadores sociais e enfermeiros”.

Ainda:

“A discriminação não é criada pela prefeitura, mas em níveis mais altos. Em 1967, o governo decidiu que os palestinos de Jerusalém Oriental teriam um status legal inferior em relação às suas contrapartes no oeste. Foram classificados como ‘residentes’, enquanto israelenses judeus são ‘cidadãos’. Esse fenômeno bizarro escapou da consciência israelense, já que é difícil explicar como –vivendo na capital de uma nação que é supostamente a ‘única democracia no Oriente Médio’– um grupo étnico inteiro tem status legal inferior a um grupo dominante.”

Em interessante entrevista ao “Times of Israel” (clique aqui), o prefeito Nir Barkat é enfático em que dividir Jerusalém não está sob cogitação. A cidade deve permanecer aberta a todos, diz –mas sob controle israelense.  Mantê-la como área controlada tanto por israelenses quanto por palestinos, diz, é um “terrível erro”.

“Jerusalém teve um papel de cidade unida, completa, não dividida entre tribos. É o DNA que temos de desenvolver, porque nada mais irá funcionar. A cidade tem de funcionar para todos os setores.”

O entrevistador pergunta: Você pensa em um modelo em que você teria um prefeito palestino como parceiro, ou um vice-prefeito? Barkat é enfático:

“A resposta é não à separação da cidade. Uma cidade. Ponto final.”

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