Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Que língua é essa?

Por Diogo Bercito
Yerushalaim, Urushalaim (Al Quds), Jerusalem

Sentado em um café no bairro de Nachlaot, chamo o garçom.

– Al salaam alaikum — Cumprimento ele. “A paz esteja convosco”.
– Wa alaikum al salaam — Ele me responde. “E convosco esteja a paz.

Deduzo, a partir desses cinco segundos de conversa, que ele fala árabe. Continuo meu pedido, um café, um bolo, um copo d’água. Ele ri e me diz:

– Desculpe, não estou entendendo nada. Sou israelense. Só sei cumprimentar em árabe. Mais nada.

Morro de vergonha e peço em inglês. Nem me atrevo a tentar o hebraico, depois do fora.

É uma situação recorrente aqui em Israel, entre os meandros de um Estado com duas línguas oficiais (hebraico, árabe), além do inglês como idioma franco.

Dou outros dois exemplos recentes.

Hoje cedo fui a Jerusalém Oriental para uma reunião com a representante de uma organização humanitária. Ela se chamava Nura, e desde o dia em que marcamos nossa conversa estive certo de que era uma mulher árabe –em que “nur” significa “luz”. Quando nos encontramos, me segurei para não começar a conversa com um “kif al hal” (“como está?”). Fiz bem. Ela era finlandesa, e me garantiu que, na Escandinávia, “Nura” é um nome comum.

No caminho de volta para minha casa, no trem, outra situação duvidosa. Um garoto sentado ao meu lado, usando o celular. Olho para a tela –coisas escritas em árabe. Olho de novo –coisas escritas em hebraico. Estou perto do meu ponto, preciso descer. O que digo para pedir passagem? “Slicha”, em hebraico? Ou “afak”, em árabe? Resolvo o dilema tocando no ombro dele e apontando para o corredor.

Pode parecer que esses relatos são sobre minhas experiências pessoas aqui em Jerusalém. De fato são. Mas isso não significa que a questão não tenha valor. Na verdade, esses causos cotidianos fazem parte de um núcleo comum do conflito, e eles servem de prisma para que possamos observar algumas questões latentes. Um exemplo trivial? As placas de trânsito, que apontam para a) Jerusalém, em letras latinas; b) Yerushalaim, em hebraico; e c) Urushalaim, em árabe.

Mas o que é Urushalaim? Que eu saiba, nada. Em árabe, entre parenteses, os sinais de trânsito dão a dica –Al Quds, o nome árabe de Jerusalém. “A sagrada”.

(Me parece que, em acadiano cuneiforme de por volta de 1300 a.C, há registros de uma cidade chamada Urushalim).

Esse foi o exemplo trivial. Vamos ao político –em 2011, o Knesset, o Parlamento israelense, debateu um projeto de lei para abolir o árabe como língua oficial de Israel, anulando o decreto do Mandato Britânico que, em 1922, estabeleceu as três línguas oficiais da região (o inglês foi suprimido, em seguida). A proposta já foi levantada neste ano, após a formação do novo governo, ainda que por enquanto apenas em discursos.

Nada indica que o projeto vá ser aprovado. Da última vez em que foi discutido, ele sofreu forte oposição de Tzipi Livni, atual ministra da Justiça. Mas o fato de que a ideia exista dá também indicações das preocupações que persistem e apontam para um Estado monocultural, em uma região justamente rica em variedade.

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