Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Judaização, beduínos e o jornalismo editorializado em Israel

Por Diogo Bercito
Polícia israelense usa canhão de água para dispersar manifestação pró-beduínos, na cidade de Haifa. Crédito Ammar Awad/Reuters

Sei que há, entre os leitores deste Orientalíssimo blog, diversos estudantes de jornalismo. Muitos deles pensam em, um dia, trabalhar em Israel. Pensei portanto que pode ser um bom exercício lermos juntos as edições de hoje dos dois principais jornais israelenses. Aproveito, assim, para comemorar que há nove meses realizei este mesmo sonho de quando eu era também um aluno –ser um repórter em Jerusalém.

Os jornais de hoje organizaram seus principais textos, incluindo editoriais, em torno da pauta da semana, as comunidades beduínas no deserto do Neguev. Extrapolando a ideia central dessa questão, chegamos também ao impasse em torno do status dos cidadãos não judeus e, em última instância, à dúvida de qual será  o caráter israelense neste Estado. Para entenderem do que estou falando, comecem lendo uma reportagem do “Haaretz” clicando aqui. Se tiverem problemas com restrições de leitura no site, tentem o “New York Times” aqui.

O “Haaretz” tem como principal artigo da página de opinião um texto de título “Odor da Injustiça Preenche o Neguev” (leia aqui), assinado por Oudeh Basharat –que argumenta que “para este governo, prejudicar os árabes é um mitzvá“. Ou seja, um “mandamento”. É uma crítica apaixonada da política pública de deslocamento de comunidades beduínas. É, também, uma crítica à postura agressiva do chanceler Avigdor Lieberman que, aliás, não deveria lidar com questões internas. O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, para Basharat, está implementando uma política de “abuso doméstico dos árabes e dos fracos”.

O editorial “Judaização = Racismo” (leia aqui) tem o mesmo tom. O assunto, porém, é outro –a formulação de um plano para “judaizar a Galileia“, nas mãos da Organização Sionista Mundial, parte do braço Executivo do governo israelense. A ideia do projeto, revelado pelo “Haaretz” no domingo (1º), é criar uma “demografia balanceada” em relação aos árabes na Galileia, atraindo mais 100 imigrantes judeus à região. Daí o “racismo” do título, já que, em um país democrático, “maioria e minoria, todos são cidadãos que devem ser tratados igualmente”. “Independente de se a maior parte dos moradores da Galileia são judeus ou árabes, todos os residentes são cidadãos do Estado e devem ser tratados como tais”, diz o texto. De maneira que a postura do chanceler Lieberman, em relação a beduínos ou árabes da Galileia, é “inadmissível” para o “Haaretz”.

Pois mudemos de tom, fechemos o “Haaretz” e abramos o jornal “Jerusalem Post”. O principal artigo opinativo é “A Inquietante História de Alocar Beduínos” (leia aqui), em que o autor Joel H. Golovensky (fundador do grupo Estratégias Judaicas) argumenta que os assentamentos beduínos são uma “desgraça nacional”. Não por como o Estado tem lidado com esses habitantes, mas por como a expansão deles está relacionada à “bigamia” e por como os beduínos têm “forte tendência a comportamentos fora da lei e à violência”.

Por mais que Golovensky tome o cuidado de, adiante, afirmar que os beduínos “não vão vilões”, o tom de seu artigo aponta para outras conclusões, e insiste na necessidade de o governo deslocá-los. Afinal, já foram estabelecidos três comitês governamentais para discutir a questão e, a despeito de todas as ofertas do Estado, a população beduína permanece na terra que afirma ser sua –e crescendo à taxa de 5% ao ano.

Vamos, então, por fim ao último texto, o editorial do “Jerusalem Post” de título “O Dilema Beduíno (leia aqui). Segundo o jornal, “por décadas, consecutivos governos israelenses têm negligenciado os beduínos e, como resultado, ajudaram a criar um estado de ausência de lei no Neguev, um território que compõe mais de metade de toda a área do Estado de Israel, sem incluir a Cisjordânia“.

Podemos concordar ou não com o argumento de que o melhor aos beduínos é de fato serem deslocados a vilas em que terão acesso aos serviços básicos e poderão contribuir com impostos. Podemos, também, aceitar ou não a ideia do editorial de que “árabes-israelenses radicalizados, palestinos, ONGs de esquerda e diversas figuras internacionais […] complicaram a questão ao tentar misturar a questão beduína com o conflito árabe-israelenseDe minha parte, amplio essa afirmação ao lembrar aos leitores de que, em muitos casos, o excesso de reportagens sobre essa região ajuda a inflar as questões e torná-las, assim, desproporcionais e ainda mais graves do que já são.

Os artigos citados correspondem, em parte, ao tom da cobertura desses jornais a respeito dos assentamentos beduínos. A respeito disso, recomendo que acompanhem o tema em ambos os veículos durante a semana. Mas espero ouvir de vocês –estudantes de jornalismo e apaixonados pela região– sobre com quais argumentos concordam e discordam e, de maneira menos específica, o que pensam da mídia local (“Haaretz” e “Jerusalem Post”, em especial) e da cobertura internacional (incluindo a da Folha).

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