Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Um mundo sem o islamismo

Por Diogo Bercito
“A Tomada de Constantinopla” em 1204, em ilustração de Palma Le Jeune (1544–1620)

O trabalho me levou, na semana passada, até Londres e o interior britânico. Algumas horas livres no meu dia me levaram, por sua vez, à livraria Al Saqi, na região de Paddington –uma charmosa loja especializada em obras a respeito do mundo árabe e do islamismo. Ali, tive a difícil missão de escolher alguns livros para trazer para Jerusalém. Um deles motiva este relato.

Estou terminando de ler “A World Without Islam”, escrito pelo ex-vice-chairman do Conselho de Inteligência Nacional da CIA, nos EUA. “Um mundo sem o islã“. Uma amiga palestina me disse, hoje, que acha a premissa da obra racista. Imaginar um contexto histórico sem o islamismo, ela diz, é uma proposta de viés negativo que parte da ideia de que os seguidores do Alcorão podem ser destacados da realidade e analisados como um fenômeno paralelo, descolado do contexto histórico.

Eu discordo. “A World Without Islam”, de Graham Fuller, me parece ser fruto de uma proposta outra –a de, enquanto reconhece que o islamismo é uma realidade histórica, se propor a entender essa religião a partir da projeção de um mundo do qual ela não faz parte. “E se o islã nunca tivesse existido?”, o autor se pergunta. É uma dúvida retórica e talvez ingênua, como aquelas questões que por vezes nos vêm à mente. Mas é também uma reflexão fértil.

Fuller, também autor de “The Future of Political Islam” (o futuro do islã político), mantém ao longo de todo o livro a ideia de que é preguiçoso analisarmos o Oriente Médio creditando ao islã a oposição entre Ocidente e Oriente. “Apesar de o argumento parecer contraintuitivo”, ele escreve, “é possível estabelecer um forte argumento de que há tensões geopolíticas profundamente enraizadas entre o Oriente Médio e o Ocidente que vão longe na história, precedendo o islã”.

É uma teoria curiosa. Me parece, também, razoavelmente inédita, ao menos na insistência de que a tal crise Oriente-Ocidente tem origem em outros fenômenos político-sociais e que não está baseada em uma oposição religiosa. Afinal, segundo Fuller, a hostilidade médio-oriental em relação ao Ocidente é uma herança cristã, a partir dos conflitos entre as igrejas baseadas em Roma (“latina”) e em Constantinopla (“grega”). Menos pela fé do que pela noção política do controle da fé.

O islã, como nova força geopolítica, herdou não apenas o anti-ocidentalismo das cidades no Império Oriental em rebelião […] mas também algumas das visões latentes anti-Roma que cresciam dentro do Império Bizantino. Enquanto Bizâncio baseava sua identidade profunda na crença de que perpetuava a tradição verdadeira do Império Romano, gradualmente passou a ver a Igreja Ocidental [ou seja, católica] como rival geopolítico.

A partir dessa premissa, Fuller reanalisa a história regional. A expansão islâmica no século 7, por exemplo, é mostrada pela abordagem tradicional de que o islã se beneficiou dos atritos entre os Impérios Bizantino e Persa –mas aqui entra também, segundo a obra, a vocação do cristianismo regional ao monofisismo, isso é, a ideia de que Jesus Cristo tem apenas uma natureza (em meio a discussões teológicas a respeito de sua posição como homem, deus ou ambos). “A profissão islâmica da única e estrita natureza humana de Jesus dificilmente seria uma surpresa para as populações cristãs [do Oriente Médio].”

Fuller analisa, também, as Cruzadas como um exemplo de que o atrito entre Ocidente e Oriente não depende do islamismo. Afinal, se o papado justificou os Exércitos europeus rumo à Terra Santa a partir de um imperativo religioso, a história também nos mostra que as missões ocorreram sob pressão econômica e demográfica. Mais importante ainda para a teoria de “A World Without Islam” são as cruzadas que culminaram em ataques às regiões de cristianismo “grego”, inclusive um saque a Constantinopla.

A crescente suspeita entre “latinos” e “gregos” durante as primeiras três Cruzadas atingiram um crescendo. A Quarta Cruzada levou a uma série de eventos que ainda vivem em infâmia nas mentes gregas até hoje. Em total desrespeito à missão de recapturar Jerusalém para a cristandade, em 1204 os cruzados desviaram suas atenções de Jerusalém e em vez disso procederam para atacar, saquear, pilhar, ocupar e liderar Constantinopla em nome da igreja romana por muitos anos. Esse de fato foi um “cataclisma” civilizatório, o ponto final de ruptura entre as duas grandes igrejas da cultura cristã, do Ocidente e do Oriente, com repercussão incalculável.

Vocês têm estado quietos, nas últimas semanas. Aproveito, então, para pedir a opinião dos leitores. Sei que diversos de vocês estudam a história da região, portanto podem me ajudar a entender –concordam que a tensão Ocidente-Oriente precede o islamismo e tem raiz, na verdade, no conflito entre as igrejas de Roma e de Constantinopla, além de no contexto econômico e social?

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