Orientalíssimo

por Diogo Bercito

 -

Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

Perfil completo

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade

Partido político quer “judaizar” Jerusalém

Por Diogo Bercito
Cartaz político pela “judaização” de Jerusalém. Crédito Reprodução

Como qualquer estudante de hebraico, passo os dias olhando para os lados, à procura de qualquer inscrição que eu possa –ou não– desvendar nas ruas de Jerusalém. É um bom exercício para treinar a leitura do sistema de escrita hebraico e também para adquirir vocabulário. O estudo da língua serve, ainda, para entender melhor o pensamento social e político de um determinado povo.

Tudo isso para dizer que li ontem, com surpresa e preocupação, um cartaz em hebraico a caminho de casa. “Leyahed et Yerushalaim”. É uma estrutura simples. “Leyahed” parece ser um verbo de tipo intensivo, no infinitivo, significando “tornar judeu”. “Et” é a partícula que indica o objeto de um verbo. “Yerushalaim” é o nome da cidade. Ou seja, “judaizar Jerusalém“. Clique aqui para ler mais sobre o verbo “leyahed”.

Esse é o lema da lista de candidatos Jerusalém Unida, pela qual Arieh King irá concorrer ao conselho municipal nas eleições de 22 de outubro. King é o líder do Fundo para a Terra de Israel e ativista em defesa das comunidades judaicas que vivem em áreas de maioria árabe, como Sheikh Jarra –cliquem aqui para ler minha reportagem sobre os esforços de israelenses para expulsar árabes desse bairro. Não por acaso a lista Jerusalém Unida é encabeçada pelo rabino Yonatan Yosef, que entrevistei há alguns meses sobre o mesmo tema. Neto do ícone religioso Ovadia Yosef, ele lidera os colonos em bairros árabes.

O cartaz segue, abaixo do slogan, com a frase “torne judaico com a construção e torne judaico com a Torá”. Anteriormente, o grupo político fez campanha em cima da imagem de homens árabes aterrorizando garotas judias em parques da cidade. A proposta do cartaz para as eleições municipais, porém, é tão inesperadamente agressiva –e sincera– que mesmo a ala direita tem criticado a lista Jerusalém Unida. Reuven Rivlin, do partido governista Likud, pediu que a Promotoria investigue se o slogan (“uma desgraça”) constitui uma ofensa criminal. A informação está, em hebraico, no Facebook dele (clique aqui).

Para além de todos os entraves às negociações de paz, como fronteiras e segurança nacional, a disputa por Jerusalém é um obstáculo quase intransponível, conforme grupos religiosos –com a anuência do Estado– continuam a expulsar palestinos de áreas árabes da cidade. É a história de Sheikh Jarra, mas também de outras regiões jerosolimitas. Recentemente, um funcionário do governo admitiu que os projetos de um parque no monte Scopus tinham por objetivo impedir a expansão de bairros palestinos em Jerusalém Oriental (leia mais aqui).

A questão da judaização é polêmica. Envolve, para os críticos dessa prática, a expulsão de palestinos, a expansão de bairros judaicos, o estabelecimento de assentamentos na Cisjordânia e a mudança de nomes de cidades do árabe para o hebraico. O esforço demográfico parte do pressuposto de que o Estado de Israel é judaico, antes de ser israelense –que, é claro, desagrada a população árabe.

Os oponentes desse programa social vão notar, ainda, que o Estado é definido como “judaico” na Declaração de Independência, mas não “democrático”. Uma proposta de lei introduzida pela coalizão governista Likud-Beitenu pede que a identidade “judaica” tenha supremacia sobre a “democrática”, conforme nota uma reportagem do “Haaretz” (leia aqui).

Blogs da Folha