Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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O islã místico e a guerra na Síria

Por Diogo Bercito
Homem alauita em cartão postal francês do início do século 20. Crédito Reprodução

Peço, primeiro de tudo, perdão. Alguns leitores se manifestaram, preocupados, dada minha ausência neste blog. Apesar das agruras da cobertura do conflito egípcio, estou bem –e, se não escrevi aqui nos últimos dias, foi mais por excesso de trabalho do que pelas dificuldades em si.

Pois bem. Com o minguar dos protestos islamitas, no Cairo, o Egito está por ora na periferia do radar deste Orientalíssimo blog. A principal questão oriental parece ser, agora, a Síria. Na semana passada, o relato de um ataque químico nos arredores de Damasco, com centenas de mortos, trouxe a ditadura de Bashar al-Assad de volta para as manchetes. Há grande expectativa de que potências ocidentais resolvam, em breve, intervir no país. Os dois anos de insurgência já deixaram, ali, mais de 100 mil mortos, segundo as Nações Unidas.

Tudo isso são questões do noticiário. Mas me chamou a atenção, hoje pela manhã, a ideia de que talvez os retalhos políticos da Síria ainda sejam, em grande parte, um enigma. Conversando com um amigo, me dei conta de que para muitos dos leitores o termo “alauita” ainda é, se não um completo mistério, ao menos uma confusão epistemológica.

Vamos começar com um fato –o ditador sírio Bashar al-Assad faz parte de um ramo específico do islamismo chamado “alauismo”. Outro fato: alauitas são, também, xiitas.

Não é difícil provar que essas duas afirmações estão relacionadas ao conflito na Síria. Em primeiro lugar, porque alauitas são um grupo minoritário no país. Em segundo, porque, devido ao desenrolar da história, eles controlam o poder há décadas ali. Por último, porque ser governada por um ramo do xiismo aproxima a Síria de países como Irã e Líbano e a afasta de outros como Arábia Saudita e Turquia. O tabuleiro está, assim, montado.

Também é importante entendermos quem são os alauitas porque, com os avanços do conflito civil na Síria, não são poucos os analistas que preveem a fragmentação territorial, dando lugar a um Estado alauita na costa mediterrânea –como, aliás, existiu entre 1920 e 1936, durante a ocupação francesa.

Exposto o contexto do retalho sírio, uma pequena digressão se faz necessária para entendermos a posição religiosa dos alauitas –espécie de vertente mística do xiismo (uma das duas divisões do islamismo, a outra sendo o sunismo).

Os alauitas surgiram por volta do século 10º como seita organizada, dando sequência a uma tradição religiosa do século anterior. O nome “alauita” significa “seguidor de Ali”, em referência ao primo do profeta Maomé e quarto califa do império islâmico.

É difícil afirmar, com segurança, em que acreditam os alauitas, em comparação a seus irmãos muçulmanos. A crença deles é, de certa maneira, obscura. Há relatos de que acreditem na divindade de Ali, um pensamento alienígena na tradição islâmica ortodoxa. Já se disse, também, que alauitas creem na reencarnação. Mas eu, na minha ignorância, não insistiria em nenhuma dessas afirmações. É preciso levarmos em conta, também, que as últimas décadas viram um efeito de “sunitização” (ou seja, influência dos sunitas) sob a ditadura da família Assad, temerosa do isolamento da comunidade alauita em meio ao mundo islâmico, que tradicionalmente vê esse grupo como hereges.

Os alauitas se concentram nos arredores da cidade de Latakia, região da qual vem a família do ditador Bashar al-Assad. Eles compõem, hoje, 11% da população síria –e o caldo grosso do poder político, no país, a partir de uma forte representação no Exército durante as décadas passadas.

Há uma nuvem de areia cobrindo os nossos dias, de maneira que não conseguimos enxergar o que está adiante. Talvez, na semana que vem, tudo o que está escrito aqui se prove inútil. Mas é provável que, em breve, com a piora do conflito sírio –e uma possível intervenção externa– nos seja útil entender no que acredita o homem que está levando a Síria para esse futuro incerto.

Crédito Editoria de Arte

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