Orientalíssimo

por Diogo Bercito

 -

Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

Perfil completo

Publicidade
Publicidade

Consciência política, estereótipo cultural

Por Diogo Bercito

Os estereótipos são recorrentes. Os egípcios, assim como os demais países árabes, são vistos como um povo atrasado, fundamentalista e alienado.

Apesar dos esforços dos orientalistas de boa-vontade, que rebatem o preconceito com fatos históricos –o califado de Córdoba, a dinastia fatímida, os cientistas islâmicos, os textos gregos conhecidos apenas por meio da tradução árabe–, o mundo árabe é, na fantasia ocidental, uma região tomada pelas trevas. Mulheres cobertas por panos, homens de barba, e todos rezando a um Deus que pede pela guerra santa do “jihad”.

Talvez daí o espanto em torno de um vídeo que tem circulado pela internet. Na gravação, um garoto de 12 anos surpreende a entrevistadora com suas respostas afiadas sobre diversas questões políticas.

[youtube QeDm2PrNV1I nolink]

Ali Ahmed, 12, diz que está nas ruas para impedir que um só partido –a Irmandade Muçulmana– se apodere da Constitução do Egito (“dustur”, em árabe, para quem quiser aproveitar o vídeo para treinar o ouvido).

“Nós não nos livramos de um regime militar para substitui-lo por uma teocracia fascista”, ele diz. “Fashia dinia?”, pergunta a entrevistadora. Teocracia fascista? “Eu nem sei o que é isso.”

“É quando você usa a religião para impôr regras extremistas em nome da fé”, ele explica. E se exalta –se as mulheres são metade da população, como só há sete membros femininos na Assembleia Constituinte? Então cita trechos da nova Carta do país, indignado com o tratamento às mulheres. “Não posso bater na minha mulher, quase matá-la, e dizer que isso é ‘disciplina’.”

Conversei, recentemente, com um garoto jerosolimita de 15 anos com um perfil semelhante. O rapaz me fala sobre o conflito árabe-israelense como quem estudou ciências políticas. Em Hebron, há alguns meses, conheci um adolescente igualmente engajado.

São jovens promissores, e podem um dia reconstruir as sociedades árabes de maneira que sejam, mais uma vez, líderes no cenário global. Mas, para isso, falta um passo crucial: que tenham as oportunidades necessárias. Afinal, quais podem ser os próximos anos para o pequeno Ali Ahmed, atrasado pela economia fracassada do Egito, pela corrupção endêmica, pela burocracia onipresente?

Blogs da Folha

Publicidade
Publicidade
Publicidade