Orientalíssimo

por Diogo Bercito

 -

Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

Perfil completo

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade

“Os egípcios estão prontos para a democracia?”

Por Diogo Bercito
Comemoração após o anúncio do golpe de Estado no Egito. Crédito Diogo Bercito/Folhapress

– Você ainda se lembra do Egito?

Ele sorriu e disse, “É claro. Aliás, o que está acontecendo no Egito nesses dias? O que eu leio nos jornais me preocupa.

– Pelo contrário, os eventos recentes fazem as pessoas serem otimistas. Os egípcios acordaram e começaram a exigir seus direitos. O regime corrupto está sendo duramente sacudido, e acredito que seus dias estejam contados.

– Você não acha que as manifestações e as greves podem levar o país à anarquia?

– Nós não podemos ter liberdade sem pagar um preço.

– Você acha que os egípcios estão prontos para a democracia?

A tradução do trecho de “Chicago” (2007), de Alaa al-Aswani, é minha –e livre. Acordando no Cairo, hoje, um dia após o golpe militar que depôs o presidente islamita Mohammed Mursi, achei auspicioso dividir a opinião desses expatriados egípcios vivendo nos Estados Unidos em um período durante o qual os acontecimentos recentes não eram sonhados.

A pergunta que encerra o trecho não é trivial. É o que todo o mundo, evidentemente em especial os povos árabes, está se perguntando –o Egito está pronto para ser democrático?

Há dois anos, multidões foram às ruas. Hosni Mubarak foi destronado após quase três décadas de ditadura. Em 2012, a população escolheu Mohammed Mursi como seu primeiro presidente democraticamente eleito.

Mursi, como era sabido desde antes de sua eleição, é um islamita. O que significa que, ligado à Irmandade Muçulmana, ele acredita em um governo com participação política do islã. Isso também era fato quando os egípcios foram às urnas.

Mas, de alguma maneira, seu primeiro e único ano de mandato encontrou tamanha oposição que, nesta semana, incentivou milhões a irem às ruas –e o Exército a tomar às suas mãos a solução do impasse, depondo o presidente.

A reação da comunidade internacional é, por enquanto, de reprovação. Mesmo Bashar al-Assad, ditador da Síria, deitou e rolou diante da notícia da deposição de Mursi, apontando que historicamente simboliza o fracasso do islã político –e insistindo em que a experiência secular síria, ainda que autoritária, continua sendo o modelo ideal à região.

O colunista da Folha Clóvis Rossi escreveu, ontem, coluna esclarecida sobre a situação egípcia, notando que “se o golpe foi dos seculares contra os religiosos, foi, portanto, contra dois terços dos egípcios, o que é tudo, menos defesa da democracia”. A íntegra está aqui.

As pessoas com quem converso nas ruas, porém, se irritam com o consenso internacional de que o Egito sofreu ontem um golpe de Estado. “Como pode ter sido um golpe, com milhões nas ruas?”, dizem. Ou, “o Exército está a nosso mando, ele faz o que quisermos”.

A história, é claro, aponta direções outras. As Forças Armadas, que detêm participação no PIB e em setores estratégicos da economia, são uma organização poderosa no país. As últimas décadas viram sua vontade imposta no povo –aliás, os últimos séculos também, e vale voltarmos no tempo para apontar que o Cairo foi fundado, afinal, como um entreposto militar chamado Fustat no século 7.

Assisti ao anúncio do golpe no meu quarto de hotel, enquanto escrevia a reportagem que ilustra a capa da Folha hoje. Em seguida, voltei ao centro da praça Tahrir para ouvir dos egípcios quais eram as novidades. Histéricos, desconhecidos me abraçavam, me beijavam na bochecha, tiravam foto comigo, e me repetiam “welcome to Egypt, welcome to Egypt, welcome to Egypt”.

Mas, em um canto, uma imagem que eu não esperava ver –um manifestante enrolado na bandeira do Egito, segurando um pôster com uma fotografia. O general Abdul Fatah al-Sisi, chefe do Exército, sorrindo na imagem.

Talvez daqui a alguns anos, com o distanciamento da perspectiva histórica, a celebração de hoje seja ofuscada por uma série de poréns.

Segundos depois do anúncio do golpe, fogos de artifício na praça Tahrir. Crédito Diogo Bercito/Folhapress

Blogs da Folha