Orientalíssimo

por Diogo Bercito

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Blog sobre o Oriente Médio, é produzido por Diogo Bercito. O repórter foi correspondente da Folha em Jerusalém e é mestre em estudos árabes pela Universidad Autónoma de Madrid.

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Prisão semântica

Por Diogo Bercito
Palestinos com imagens de Maysara Abu Hamdiyeh, que morreu nesta semana em uma prisão israelense. Crédito Ahmad Gharabli/AFP

Uma das questões do dia, aqui em Jerusalém, é a situação dos prisioneiros palestinos detidos por Israel –mais de 4.500, muitos deles enfrentando a prisão perpétua.

É um assunto importantíssimo para a região, e vai ocupar um lugar visível na mesa das negociações entre Mahmud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina, e Binyamin Netanyahu, premiê de Israel –caso eles se sentem para negociar, é claro.

Com a vinda de John Kerry, secretário de Estado dos EUA, para a região no sábado, o assunto deve estar presente na mídia israelense diariamente. Em 17 de abril, palestinos irão manifestar-se no dia anual dos prisioneiros, na Cisjordânia.

Isso tudo como plano de fundo. Para além do problema já em pauta, ontem morreu em uma prisão israelense o palestino Maysara Abu Hamdiyeh, que tinha tido um câncer diagnosticado no esôfago.

Amanhã, haverá um enterro público em Hebron. Devo estar por lá. Não vai ser um dia fácil.

Mas tudo isso estará nos jornais, nas próximas semanas. O que me traz aqui, hoje, é mais uma vez a etimologia. Não pela ciência em si, mas pela carga política de sua prática.

E vejam só –os palestinos não se referem aos homens nas prisões israelenses como “sajin” (prisioneiro), mas como “asir” (cativo).

Na linguística, as palavras são definidas em relação umas às outras. Ou seja, duas delas nunca significam a mesma coisa. É nosso caso, entre prisioneiros e cativos.

Estive mais cedo com Ronni Shaked, ex-Shin Bet (agência de segurança), em um evento para jornalistas. Ele falava especificamente dos prisioneiros, e foi ele quem me chamou a atenção para a palavra “asir”.

A questão, para ele, é de narrativa também. Há duas, diz. “Para os palestinos, esses não são prisioneiros regulares. São prisioneiros políticos. Para os israelenses, são terroristas.”

Agora, a ver como a divergência entre as histórias vai ser, se puder ser, contornada. O processo de paz é, de certa maneira, a unificação das narrativas em uma só. “Uma história para dois povos”, ele diz.

Mas qual história?

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