Após veto a cidadãos de países islâmicos, os EUA repensam sua atitude quanto aos muçulmanos

Por Diogo Bercito

Há quase um ano Donald Trump decretou seu veto à entrada de cidadãos de sete países de maioria muçulmana. A decisão foi extremamente controversa e levou analistas a se questionarem sobre os possíveis efeitos negativos daquela medida, por exemplo, o incremento da islamofobia nos EUA — e de fato foi registrado um aumento quase recorde no número de ataques contra muçulmanos.

Mas a polêmica decisão do presidente republicano teve também um efeito contraintuitivo: melhorou as atitudes dos americanos em relação aos muçulmanos, segundo um estudo publicado nesta semana pela revista acadêmica “Political Behavior”. O resumo da pesquisa diz que:

O veto levou a um furor de protestos em cidades e aeroportos americanos, atraindo uma tremenda atenção da imprensa e discussões. […] Acreditamos que o fluxo de novas informações retratando o veto aos muçulmanos como algo contrário aos elementos inclusivos da identidade americana levou alguns cidadãos a mudar suas atitudes.

Os pesquisadores ouviram 423 pessoas no início de 2017, antes e depois de Trump assinar sua ordem executiva. O intenso debate social –à época, advogados americanos se voluntariaram para ajudar muçulmanos barrados nos aeroportos– fez com que mais de 30% dos participantes tivessem uma opinião mais negativa sobre o veto aos cidadãos vindos de países de maioria islâmica.

Protesto contra o veto a muçulmanos nos EUA. Crédito Brian Snyder/Reuters

A velocidade da mudança de visão impressionou os cientistas por ser um fenômeno raro nos casos de opinião pública. O elemento-chave parece ter sido apresentar o veto como algo contrário à identidade americana, em tese mais receptiva. Mais uma vez segundo o texto da pesquisa:

Nas horas e nos dias após a ordem executiva ter sido assinada, demonstramos também que o ambiente da informação […] retratou o veto, em algum grau, como algo inerentemente não americano. Desafios ao veto foram numerosos, com manifestantes, comentaristas de imprensa e a elite repetida e abertamente criticando aquela medida como algo fundamentalmente incompatível com os valores básicos americanos.