Como o cinema egípcio trata da homossexualidade?

Por Diogo Bercito

Em meio à repressão contra homossexuais no Egito — 57 foram detidos neste mês por “deboche” — o site independente Mada Masr publicou um interessante estudo sobre a representação de gays no cinema nacional. “Sugestões de homossexualidade apareceram regularmente em filmes desde o fim da década de 1950”, escreve o autor do artigo, Adham Youssef. Nem sempre com controvérsia.

O tema é urgente. A banda libanesa Mashrou’ Leila, cujo vocalista milita pelos direitos gays no Oriente Médio, se apresentou em setembro no Cairo. As autoridades egípcias perseguiram quem apareceu nas fotografias da apresentação segurando bandeiras de arco-íris, com ameaças de submeter os detidos a exames anais para comprovar sua homossexualidade — que ele negam.

Apresentação da banda libanesa Mashrou Leila. Crédito Jamal Saidi/Reuters

Um promotor afirmou haver contradição entre a aceitação de homossexuais e o Alcorão. “O Estado permite a venda de álcool, apesar de ser proibido pelo islã. Todas as pessoas são livres desde que não machuquem as outras. Elas serão julgadas diante de Deus no final”, afirmou. No sábado passado, o Conselho Supremo para a Regulação da Mídia ordenou a proibição da aparição de homossexuais afirmando que são “uma desgraça que deveria ser escondida, e não celebrada”.

O cinema egípcio retratou homossexuais de diferentes maneiras nas últimas décadas, segundo o estudo de Youssef. Parte dos personagens foi construída como um estereótipo cômico de homem feminino. Foi o caso de “Al-Bahs Aan Fadiha” (em busca de um escândalo, de 1967). Em outras obras, como “Romantica” (1996), gays foram representados como indicações do colapso da sociedade. O exemplo que mais me incomoda pessoalmente é o celebrado “Edifício Yacoubian” (2006), produção mais cara do cinema local, em que um personagem homossexual é tratado como vítima de um modo de vida boêmio e ocidental — pelo que é duramente punido pelo autor.

Cena de “Darb al-Hawa”, de 1983. Crédito Reprodução

O artigo do Mada Masr aponta também, no entanto, que houve diversos filmes egípcios com uma imagem mais complexa e menos moralista da homossexualidade. É o caso de toda a obra clássica de Youssef Chahine, um dos principais diretores árabes do século 20. Em “Al-Nas wal Nile” (o povo e o Nilo, de 1972), Chahine retratou a relação entre um técnico soviético e um trabalhador núbio em paralelo à construção da Represa de Assuã. Em “Adeus Bonaparte” (1985), um general francês se apaixona por dois garotos egípcios — seu beijo ao pé de um causou comoção naquela década. Diversos dos protagonistas de Chahine são gays, vide “Iskindryia Lih?” (Alexandria por quê?, de 1979), sobre o amor entre um nacionalista egípcio e um soldado britânico na Segunda Guerra.

Segundo o autor do texto sobre o cinema egípcio:

O discurso em torno da homossexualidade no Egito é geralmente limitado aos direitos humanos, analisando a repressão estatal a partir de um ponto de vista político. Mas observar as representações culturais nos ajuda a entender por que há uma falta de ultraje quanto ao estupro de gays em detenção, por que famílias pensam que homossexualidade tem causa e cura, e por que jornalistas não são punidos ao se referir aos acusados no caso das bandeiras arco-íris como “filhos de mulheres divorciadas”, “agentes ocidentais” ou “doentes mentais”.