Em filme, palestina é obrigada a ter filho na prisão

Por Diogo Bercito

A professora palestina Layal tem uma decisão difícil a tomar: abortar ou ter um filho dentro de uma prisão israelense. Com alguns agravantes: ela foi detida injustamente e seu marido desapareceu.

A diretora Mai Masri conta essa história em “3000 Noites”, um dos filmes exibidos em São Paulo durante a Mostra Mundo Árabe de Cinema, e um dos mais impactantes — porque foi inspirado em casos reais, recolhidos por Masri durante entrevistas. O longa foi a aposta jordaniana ao Oscar.

“3000” será exibido nesta sexta-feira (11) às 19h, no Cinesesc (r. Augusta, 2.075, tel. 0/xx/11/3087-0500). Ingresso: R$ 12. Há mais informações no site do Instituto da Cultura Árabe.

A história de “3000 Noites” se passa nos anos 1980, um período durante o qual algumas presas políticas palestinas dividiam celas com israelenses, explica a diretora. Diante do contexto político, a situação levava a atritos. Mas é dessa interação que surgem alguns dos momentos mais emocionantes do filme: existe ali um companheirismo que supera as disputas entre os governos.

Prisioneiras palestinas cuidam de criança. Crédito Reprodução

A professora resiste à prisão e às ameaças de suas colegas de cela e consegue, ao decidir ter o filho, desafiar os laços sociais naquele espaço fechado. O filme trabalha com momentos de silêncio e, num jogo de luz e sombras, diz pouco sobre a protagonista. Silenciosa, ela não se defende da acusação e guarda a si as dúvidas. A imagem de Layal olhando pelas grades resume bem o filme.

Leia abaixo trechos do depoimento da diretora palestina Mai Masri à Folha.

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“3000 Noites” é completamente baseado em histórias reais. Durante minha pesquisa, eu me surpreendi ao descobrir que na prisão israelense Neve Tirza eles costumavam colocar prisioneiras políticas palestinas com criminosas regulares israelenses nos anos 1970 e 1980. Isso resultava em conflitos, às vezes encorajados pelos guardas, mas também levava a momentos de solidariedade e de empatia. Foi fascinante explorar isso, especialmente porque esses momentos são pouco documentados. Mostrei isso no filme por meio da relação entre uma mãe palestina, Layal, e uma prisioneira israelense.
A história do filme é bastante humana e toca em temas universais como justiça e resiliência. Também é um filme sobre a solidariedade entre as mulheres e a afirmação da vida e da esperança. O contexto é político porque lida com a ocupação israelense. A prisão é uma metáfora para a condição dos palestinos. Mais de um milhão de palestinos — quase 20% da população — esteve detido desde 1967, muitos deles sem julgamento. Alguns dos atores com quem trabalhei foram prisioneiros eles próprios.
As condições que mostrei no filme são bastante menos severas dos que as condições reais nas prisões israelenses. Eu evitei, de propósito, dramatizar em excesso os eventos ou usar a trilha sonora para manipular as emoções do público. Também tomei cuidado para mostrar personagens positivos no lado israelense, como a advogada Rachel.
Sinto que é meu dever contar as histórias de meu povo de uma maneira humana e que toque. Me orgulha que “3000 Noites” tenha sido visto por milhares de pessoas ao redor do mundo e tenha recebido mais de 24 prêmios internacionais. Espero que continue a conscientizar e inspirar as pessoas da maneira mais profunda o possível.
Greve dentro de uma prisão israelense. Crédito Reprodução