No Kuait, mulher filma queda de empregada etíope de janela no 7º andar e é detida pela polícia

Por Diogo Bercito

A polícia do Kuait deteve na quinta-feira a mulher que filmou a queda de sua empregada, uma cidadã etíope, de uma janela no sétimo andar — em vez de ajudar, ela chamou-lhe de louca e pediu que voltasse. O vídeo foi publicado na rede social Snapchat e reproduzido em outros meios.

As imagens, circuladas na semana passada, foram recebidas com choque no Golfo. É possível ver uma mulher dependurada na janela e pedindo ajuda (ela grita “me segure! me segure! me…”). Suas mãos de repente escorregam. O vídeo registra o momento do ruidoso impacto. Outras imagens mostram seu resgate. Ela sobreviveu com um braço quebrado e outros ferimentos leves.

AVISO: O VÍDEO ABAIXO CONTÉM IMAGENS FORTES.

A Sociedade do Kuait para os Direitos Humanos condenou o incidente e pediu a investigação da empregadora. A mulher se defende dizendo que a empregada tentou se suicidar e que decidiu filmar a cena apenas para o caso de que fosse acusada de assassiná-la. Não está claro porque não ajudou.

Em um vídeo gravado mais tarde em um hospital, a etíope nega essa informação. “Eu não estava tentando me suicidar. Estava tentando escapar da mulher que queria me matar”, disse. “A senhora me colocou no banheiro e ia me matar sem ninguém saber de nada. Ela ia jogar meu corpo fora como lixo. Em vez de ficar ali, decidi me salvar. Então caí.” Seu nome não foi revelado.

A história trouxe à tona, mais uma vez, o tratamento de trabalhadores em países do Golfo. Há 600 mil empregados domésticos no Kuait, em sua maior parte migrantes de países do sul asiático.

As leis trabalhistas nessa região são baseadas no conceito de “kafala”, em que os empregadores patrocinam os vistos de seus empregados. Essa estrutura dificulta, por exemplo, a troca de empregos e a saída do país sem a permissão dos empregadores, que em alguns casos retêm o passaporte de seus funcionários. A prática de “kafala” é criticada pela organização HRW (Human Rights Watch) como um dos principais obstáculos aos direitos desses trabalhadores.

A pesquisadora Rothna Bengun, do HRW, escreveu em um relatório na segunda-feira (3):

Não é a primeira vez em que um trabalhador doméstico — alguém contratado para limpar, cozinhar e cuidar de um lar — tenta uma fuga perigosa ou o suicídio. Em 2009, a HRW conversou com oito mulheres que supostamente haviam tentado se suicidar, mas que disseram ter caído de edifícios tentando escapar de abusos ou ter sido empurradas por seus empregadores. Entrevistei centenas de trabalhadoras domésticas na região do Golfo. Diversas delas disseram que seus empregadores lhes trancavam e lhes obrigavam a trabalhar por horas excessivas, batendo nelas. O Kuait tomou medidas em 2015 para garantir os direitos trabalhistas dos migrantes, mas não reformou seu notório sistema de “kafala”. Como resultado, trabalhadores domésticos agora têm o direito a um dia de folga e limites a sua carga de trabalho — mas eles ainda podem ser presos se tentarem fugir de seus empregadores, mesmo se sofrerem abuso.