Crise ameaça arquivo brasileiro sobre o Holocausto

Por Diogo Bercito

O Arquivo Virtual Arqshoah, que reúne depoimentos de sobreviventes do Holocausto, está ameaçado pela falta de recursos. Segundo uma reportagem publicada na semana passada, o projeto pode ter que interromper suas atividades — o Arqshoah já realizou 242 entrevistas e arquivou mais de 6 mil fotografias de sobreviventes que se mudaram ao Brasil.

O trabalho é coordenado pela historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, professora da USP, que tem se dedicado ao tema nas últimas décadas. Ela é autora do importante estudo “O Antissemitismo na Era Vargas”, publicado pela editora Perspectiva. A Folha publicou uma extensa reportagem sobre o arquivo há um ano.

O projeto do LEER (Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação) teve que reduzir sua equipe neste ano a cinco bolsistas e três voluntários, segundo o jornal “Estado”.  Bolsas que ajudavam a financiar o trabalho devem expirar no fim do ano. Sem verba, as gravações foram interrompidas — o orçamento mínimo para manter as pesquisas é de R$ 54 mil por mês.

O Arqshoah busca agora doações de empresários. A primeira etapa do trabalho havia sido financiada por verba do edital Samuel Klein, batizado com o nome do polonês que fundou as Casas Bahia após ter migrado ao Brasil. Segundo a reportagem de Anna Virginia Balloussier:

Entre os anos 1930 e 1950, cerca de 16 mil judeus aportaram no país. Alguns forjaram vistos católicos, já que o governo de Getúlio Vargas não era sensível aos apelos para acolher o povo judaico –negou ao menos 14 mil pedidos de visto, diz Carneiro. Vieram para cá artistas como as fotógrafas Alice Brill e Hildegard Rosenthal e o escritor austríaco Stefan Zweig.

Ficha consular arquivada pelo Arqshoah. Crédito Reprodução
Ficha consular arquivada pelo Arqshoah. Crédito Reprodução

Há outros projetos em andamento no Brasil para registrar a história da comunidade judaica no país. Escrevi no ano passado ao jornal israelense “Haaretz” sobre o acervo reunido pela sobrevivente Ruth Tarasantchi. Tarasantchi reúne objetos cotidianos a partir de doações — incluindo o diário de sua avó, sua boneca Beba e a maleta que carregava ao deixar a Iugoslávia, durante o Holocausto.