TV marroquina é criticada por ensinar maquiagem que esconde a violência doméstica

Por Diogo Bercito

Um canal de TV marroquino exibiu na quarta-feira (23) um passo a passo para que mulheres possam esconder com maquiagem as marcas de violência doméstica. A transmissão, às vésperas do Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres, resultou em duras críticas e em uma petição on-line contra o canal 2M.

O programa ensinou “truques de camuflagem” em rostos com hematomas — “para que, se você tiver que trabalhar durante o dia, os roxos não apareçam”, disse a apresentadora, segundo uma reportagem do jornal britânico “Telegraph”. Entre as sugestões estava o uso de uma base amarela. “Se você usar a branca, a marca vermelha irá aparecer sempre.”

“Nós estamos aqui para oferecer soluções àquelas mulheres que, por um período de duas ou três semanas, deixam sua vida social de lado enquanto suas feridas cicatrizam. Essas mulheres já foram sujeitas à humilhação moral e não precisam também que outras pessoas olhem para elas”, afirmou a maquiadora convidada pelo programa.

O vídeo do tutorial foi removido do site da emissora, que pediu desculpas pelo “erro no julgamento, diante da sensibilidade e da gravidade do assunto da violência contra as mulheres”. As imagens ainda estão disponíveis no YouTube, no entanto. O canal também afirmou que vai tomar medidas contra os responsáveis pelo conteúdo.

O escândalo coincide com repetidas críticas de organizações em defesa dos direitos humanos, que apontam graves violações no Marrocos. Há uma lei para a prevenção de violência contra a mulher pendente desde 2013, segundo a Human Rights Watch. Uma pesquisa oficial apontou, em 2009, que 62,8% das mulheres entre 18 e 65 anos foram alvo de violência física, psicológica, sexual ou econômica. Apenas 3% das vítimas denunciaram a agressão às autoridades.

Segundo o texto da petição contra o canal,

Denunciamos a mensagem de normalização da violência contra as mulheres. Nós exigimos sanções severas contra o show e contra o canal. Encorajamos que os signatários entrem em contato com a Alta Autoridade de Comunicação Audiovisual (HACA) exigindo que tomem medidas. […] Não cubra a violência doméstica com maquiagem, condene o agressor!