Escritor argelino narra a história do país por meio do boxe

Por Diogo Bercito

Publiquei neste domingo (30), na “Ilustríssima”, uma reportagem sobre o futebol no Oriente Médio. O texto reúne, a partir de um estudo de James Dorsey, exemplos da intersecção entre o campinho e a política. O líder da organização terrorista Estado Islâmico, por exemplo, era conhecido como “Maradona” na prisão, e os torcedores egípcios estiveram na linha de frente da revolução de 2011.

Conversei também sobre esse assunto com o escritor argelino Yasmina Khadra, pseudônimo de Mohammed Moulessehoul. Khadra publicou em 2013 o livro “Os Anjos Morrem”, sobre um jovem que encontra em outro esporte — o boxe — a sua chance de redenção. “Foi pelas vitórias de seus boxeadores que os argelinos retomaram sua identidade depois de terem sido, por um século, reduzidos a menos do que nada”, ele disse a este Orientalíssimo blog. A Argélia foi colonizada pela França de 1830 a 1962.

“Fomos vencidos pelas armas. Nos restava recuperar nosso orgulho por meio do esporte. Nossos atletas nos permitiram manter acesa a chama de nossa honra, que continuava a nos iluminar vinda de dentro.”

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Orientalíssimo – O senhor escolheu contar a história da Argélia por meio do boxe. Por quê?
Yasmina Khadra – A Argélia foi colonizada pela França. Europeus e nativos viviam cada qual dentro de sua comunidade. Exploradores e explorados. O boxe e o futebol foram as únicas oportunidade de reunir os dois campos durante uma partida. Eu queria contar esses momentos. A literatura de época ignora os paradoxos rampantes entre os relatos dos colonos e dos saqueados.

Como a Argélia reconstruiu sua imagem por meio do esporte?
A imagem da Argélia sempre esteve desfigurada. Os prismas por meio dos quais nós observávamos o país estavam enviesados. Ainda hoje estamos longe da realidade. Em especial durante os anos de terrorismo. O argelino é ainda hoje um personagem incompreendido, uma espécie de enigma. Foi pelas vitórias de seus boxeadores que os argelinos retomaram sua identidade depois de terem sido, por um século, reduzidos a menos do que nada. O ringue foi, nos anos 1930, uma tribuna política a partir da qual os argelinos reclamaram o respeito que lhes havia sido negado. Cada combate se transformava em um fórum militante.

O senhor parece entender que o esporte é uma dimensão simbólica em que é possível um argelino vencer o colonizador. Mesmo se o colonizador estiver vencendo, territorialmente?
Exatamente. A vitória de um boxeador argelino galvanizava o espírito do nacionalismo nascente. Pela primeira vez, nossos heróis tinham o direito de levantar os braços ao céu e de posar diante dos fotógrafos. Pela primeira vez, eles tinham um lugar nos jornais e um possível acesso à posteridade. Quando um boxeador francês derrubava um de nossos campeões, o que era raro, nosso entusiasmo exigia uma revanche imediata.

O futebol, ou o esporte em geral, foi bastante importante para a fabricação de uma identidade argelina.
Absolutamente. O colonialismo francês foi de uma brutalidade rara. Tentou nos reificar, nos tornar estrangeiros a nós mesmos. Mas nós tínhamos uma história anterior. Desde 1830, início da colonização da Argélia, nossas tribos não deixaram de combater. Fomos vencidos pelas armas. Nos restava recuperar nosso orgulho por meio do esporte. Nossos atletas nos permitiram manter acesa a chama de nossa honra, que continuava a nos iluminar vinda de dentro.

Por que o esporte, especificamente?
O esporte é uma vitrine privilegiada a todos os povos. É por meio de nossos campeões que consolidamos nosso lugar. E é também por meio de nossos campeões que ganhamos o respeito e a admiração das outras nações. O Brasil é adorado em todo o mundo graças a seu futebol espetacular. O esporte é, sem dúvida, o instante mágico em que nos tornamos plenamente humanos.

Certos países são mais influenciados pelo futebol, e por que razões históricas?
Todos os países são influenciados pelo futebol. Não se trata de razões históricas, mas simplesmente de uma necessidade natural de sonhar. O esporte é uma terapia sublime. Acalma nossas angústias. Uma vitória é um alívio. Uma derrota é o retorno à banalidade de todos os dias — mas, como sempre há revanche, existem outras chances de vencer e ser feliz. Se todos os conflitos do mundo fossem determinados nos estádios ou nos ringues, as guerras matariam menos pessoas e causariam menos dano, e os homens viveriam menos frustrados e raivosos. Então viva o esporte!