O Reino Unido e o islã têm uma longa história em comum, apesar dos populistas

Por Diogo Bercito

Um desalento aos populistas e nacionalistas britânicos, entre suas declarações xenófobas e islamofóbicas — a rainha Elizabeth 1ª, um dos símbolos do Reino Unido, foi responsável por aproximar a Inglaterra do mundo de cultura árabe e muçulmana. Como escreve o professor Jerry Brotton em um artigo publicado pelo “New York Times”:

Desde sua subida ao trono em 1558, Elizabeth começou a buscar laços diplomáticos, comerciais e militares com líderes muçulmanos no Irã, na Turquia e no Marrocos — e com boas razões. Em 1570, quando ficou evidente que a Inglaterra protestante não iria retornar à fé católica, o papa excomungou Elizabeth e pediu que a coroa fosse retirada dela. Rapidamente a Espanha católica estava contra ela, com uma invasão iminente. Comerciantes britânicos foram proibidos de negociar com os ricos mercados da Holanda espanhola. O isolamento econômico e político ameaçou destruir o novo país protestante.

Brotton, professor de estudos do Renascimento em Londres, é autor do livro ainda inédito “O Sultão e a Rainha: A História Não Contada de Elizabeth e o Islã”. Ele defende, no diário britânico, as semelhanças entre aquele período e o contemporâneo, também marcado por uma Inglaterra de costas à Europa e liderada por uma mulher que busca o comércio com o oriente. “Um dos aspectos mais surpreendentes da Inglaterra de Elizabeth é que sua política externa e econômica foi marcada por uma aliança próxima com o mundo islâmico, um fato convenientemente ignorado.”

Retrato de Mourad 3º, atribuído a um artista espanhol no século 17. Crédito Reprodução
Retrato de Mourad 3º, atribuído a um artista espanhol no século 17. Crédito Reprodução

Uma das razões pelas quais Elizabeth buscou alianças com o mundo islâmico foi a rivalidade entre a Espanha e o Império Otomano (a atual Turquia), liderado àquela época pelo sultão Murad 3º. Mas, como argumenta o autor, havia um problema — os impérios muçulmanos eram muito mais poderosos do que a Inglaterra, e Elizabeth não tinha como financiar suas novas alianças. Uma de suas estratégias, mais tarde essenciais na política externa inglesa, foram as companhias de comércio.

Os comerciantes ingleses puderam, assim, negociar em Aleppo, na Síria, e em Mossul, no Iraque. Ambas as cidades estão atualmente nos noticiários, entre embates com a organização terrorista Estado Islâmico. Mas, à época, eram mais seguras aos comerciantes da rainha Elizabeth, que na Espanha corriam o risco de ser perseguidos pelas autoridades católicas.

Na conclusão de seu artigo, Brotton escreve:

O islã, em todas as suas manifestações — imperial, militar e comercial –, teve um importante papel na história da Inglaterra. Hoje, quando a retórica anti-muçulmana inflama o discurso político, é útil nos lembrarmos de que nossos passados estão mais entrelaçados do que geralmente é reconhecido.