Hillary e Trump enxergam muçulmanos em branco e preto, segundo site americano

Por Diogo Bercito

Hillary Clinton, candidata do Partido Democrata à Casa Branca, tem já de largada uma vantagem diante dos eleitores americanos muçulmanos: ela não é Donald Trump. O rival republicano vem dizendo tantos disparates em relação ao islã que dificilmente contará com essa comunidade no pleito presidencial de novembro.

Trump defedeu, por exemplo, impedir a entrada de muçulmanos nos Estados Unidos, vigiar mesquitas e criar um registro de seguidores do islã nos EUA. Nesse contexto, uma pesquisa divulgada em março pelo Council on American-Islamic Relations, a partir da entrevista de 2.000 muçulmanos em seis Estados americanos, registrou que Hillary tinha o apoio de 46% deles, enquanto Trump convencia 11%.

A candidata democrata Hillary Clinton. Crédito Aaron Bernstein/Reuters
A candidata democrata Hillary Clinton. Crédito Aaron Bernstein/Reuters

Os 11% de Trump são de alguma maneira surpreendentes, dada sua posição em relação a essa religião –seguida por quase 25% do mundo, e 1% dos EUA. A revista “Time” ouviu três dos eleitores muçulmanos do candidato republicano para entender a razão do inesperado voto.

Mas um artigo publicado pelo site Vox.com argumenta que o fato de as declarações de Trump serem inaceitáveis não faz com que a postura Hillary seja necessariamente adequada. O sociólogo Erik Love, especializado na comunidade muçulmana dos EUA, afirma:

A retórica de Trump tornou-se o padrão a partir do qual qual as declarações de todo o mundo são medidas. O que Hillary disse se torna automaticamente OK. Mas não é OK.

Segundo o Vox.com, Hillary tem se esforçado em descrever os muçulmanos americanos como uma comunidade pacífica. O ex-presidente Bill Clinton, seu marido, afirmou que eles amam a paz e odeiam o terror. O site defende que, ao caracterizar muçulmanos americanos em branco e preto –ou amantes da paz, ou apoiadores do terror– a mensagem dos candidatos perpetua um sentimento crescente nos EUA de que os muçulmanos não são, no final das contas, americanos.

O sociólogo Charles Kurzman, também ouvido pelo site, afirmou que seus estudos com muçulmanos americanos indicaram que os comentários de Hillary, apesar de menos danosos que os de Trump, também são mal recebidos. Segundo Neda Maghbouleh, da Universidade de Toronto:

Quando ela coloca as escolhas dessa maneira, significa que para muçulmanos serem cidadãos políticos “bons” e com valor cultural, eles precisam declarar lealdade à mesma mídia e aos mesmos políticos que têm vigiado, detido e abusado deles com base em seus nomes, sua fé e sua aparência física. Americanos de outras fés podem ter uma gama de opiniões sobre a imprensa e a polícia e a política sem a ameaça de ter sua cidadania revogada. “Bons” muçulmanos simplesmente não podem.