Quem é Umm Kulthum, a diva egípcia que Michel Temer ouvia em discos de vinil?

Por Diogo Bercito

O vice-presidente Michel Temer nasceu no Brasil graças a um intervalo de 15 anos. Três de seus irmãos nasceram em Btaaboura, um vilarejo no norte do Líbano, de onde a família migrou em 1925. Temer nasceu em Tietê (SP) em 1940, caçula. Nesta semana, com o provável afastamento da presidente Dilma Rousseff, ele pode chegar a liderar o Brasil.

Voltei a Btaaboura na sexta-feira (6) para reencontrar-me com seus primos, que eu havia conhecido um ano antes. Durante toda a manhã, conversamos sobre a família Temer e sobre o povoado, que vive de suas oliveiras. Há cerca de 400 habitantes, boa parte dos quais passa a semana em Beirute devido aos estudos ou ao trabalho.

Encontrei ali, também, o simpaticíssimo eletricista Elias Suaid, 70, que cresceu em Tietê e conviveu com Temer durante sua juventude, antes de migrar ao Líbano em 1962. Ele me contou, por exemplo, que a família Temer era conhecida no interior paulista pela dedicação de seus filhos aos estudos. “Estou muito contente”, disse Suaid, sobre a possibilidade de Temer tornar-se presidente do Brasil. “Ele merece.”

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Suaid me contou também um detalhe saboroso sobre a juventude de Temer, em Tietê. Nas horas de folga, o vice-presidente visitava a família do eletricista para ouvir os vinis de cantores árabes. Em especial, parecia gostar da diva egípcia Umm Kulthum, segundo o relato de Suaid.

Alguns dos leitores deste Orientalíssimo blog provavelmente já conhecem Umm Kulthum, em especial aqueles que têm origem árabe. Aos que nunca ouviram suas canções, este post serve de alarme: despertem! Umm Kulthum é um dos nomes mais importantes da música árabe, e uma referência recorrente a quem visita a região. Em um táxi em qualquer país do Oriente Médio, há grandes chances de vocês ouvirem uma de suas canções.

Umm Kulthum viveu seu auge entre os anos 1940 e 1950 e, devido a sua voz, foi chamada de “A Estrela do Oriente”. Ela celebrou tanto canções populares quanto poemas escritos em árabe clássico, com temas religiosos.

Diversas das gravações de Umm Kulthum são bastante longas, para a expectativa de canções de três a quatro minutos. Mas a duração era parte da experiência de assistir a um concerto, àquela época, e passar pelo estado de êxtase conhecido em árabe como “tarab”. Dependendo das reações da plateia, Umm Kultum podia repetir o mesmo verso diversas vezes, variando a tonalidade. Há canções que duram mais de uma hora, com longos períodos de orquestra.

Umm Kulthum morreu em 1975, e seu funeral foi marcado pela comoção popular. Há diversos relatos de multidões em luto nas ruas, estimadas aos milhões –um fenômeno similar à morte do líder egípcio Gamal Abdel Nasser, cinco anos antes.

Vocês podem assistir, abaixo, ao vídeo de uma apresentação ao vivo de Umm Kulthum, com legendas em inglês.