Os militantes do Estado Islâmico são religiosos?

Por Diogo Bercito

Quando milhares de formulários de militantes do Estado Islâmico foram recentemente divulgados, analistas apontaram para uma característica em comum entre os membros dessa organização terrorista: a maior parte deles, segundo o trabalho do repórter Yassin Musharbash, tem pouco conhecimento da “sharia”, a lei islâmica. Mas, se essa observação é de fato correta, e pudermos afirmar que o conhecimento da lei islâmica é limitado entre os seguidores do Estado Islâmico, isso significa necessariamente que esses militantes são pouco religiosos?

Um artigo recentemente publicado pelo think tank americano Brookings Institution sugere que não. O estudo, assinado por Andrew Lebovich, afirma afinal que a relação entre o conhecimento da lei islâmica e a religiosidade não é tão direta quanto esperam as análises superficiais.

Segundo Lebovich, “a fraqueza relativa de quanto conhecimento alguém tem da ‘sharia’ não necessariamente diz muito sobre quão religioso ele é ou quer ser. Um conhecimento profundo da ‘sharia’ não é particularmente comum entre muçulmanos praticantes”.

A visão externa, afirma o autor, é baseada nos textos de pensadores extremamente bem educados e preocupados com a interpretação da lei islâmica. Por outro lado, a maior parte da população nunca teve um conhecimento profundo da “sharia”. Esse tipo de estudo era reservado à categoria dos sábios, conhecidos no mundo árabe-islâmico como “ulemá”. Na comparação de Lebovich, criticar um muçulmano pelo quanto ele conhece da lei islâmica seria equivalente a questionar a noção de associação cívica de um americano porque ele não é um advogado. “Eles podem não saber nada sobre a lei, mas há muito mais na ideia de ser um americano do que apenas isso”, escreve o autor.

Um militante do Estado Islâmico —como o belga Brian de Mulder, filho de uma brasileira— pode ter pouco conhecimento sobre as leis islâmicas. Mas essa desinformação tem diversos possíveis significados, segundo Lebovich. Por exemplo, que as pessoas se unem a organizações terroristas devido a uma intersecção de fatores, incluindo crença, política e economia. Mas a ideia de que os militantes tenham que ser bem versados no islã parte da nossa projeção em relação à educação deles. Alguém, argumenta o autor, pode ser um fiel ardente a partir de sua crença na justiça do islã, apesar de não conhecer os meandros da religião. Não há nenhuma incoerência nisso.

Essa pode parecer uma questão apenas acadêmica, sem aplicação prática. Há, no entanto, consequências para a elaboração de estratégias no combate ao terrorismo. Lebovich exemplifica:

As questões sobre a educação islâmica e as estruturas de autoridade regulatória estão longe de ser apolíticas. Mesmo que líderes de países muçulmanos e de comunidades queiram inibir o radicalismo e a violência, exercer controle sobre estruturas religiosas e líderes também significa exercer controle sobre fiéis. Países como Turquia, Argélia e Marrocos, por exemplo, fizeram esforços para controlar mais de perto mesquitas e nomear líderes pró-governo […]. Mas essas iniciativas não apenas politizam ainda mais a educação islâmica, o treinamento e os discursos –elas também servem como ferramenta de política externa para governos reforçarem sua legitimidade no exterior.