Quem foi Zenóbia, rainha de Palmira acorrentada em ouro?

Por Diogo Bercito

O Exército sírio retomou, no domingo (27), as ruínas de Palmira. A conquista é uma vitória simbólica ao regime de Bashar al-Assad –e um punhado de areia na boca da organização terrorista Estado Islâmico, que nos últimos meses tem perdido territórios na Síria e no Iraque.

Uma das razões pelas quais a batalha por Palmira foi acompanhada com ansiedade é sua importância histórica. A cidade, no deserto sírio, foi no século 3 d.C o centro de um poderoso império que disputou o controle da região com o Império Romano. Escrevi sobre essas ruínas em maio passado, quando o Estado Islâmico tomou o território.

Historicamente, Palmira está associada ao nome de Zenóbia. Figura emblemática, essa rainha foi retratada por pintores e escultores como um tema clássico recorrente. Ela simbolizou, na Antiguidade, tanto a beleza quanto a erudição –além da perda. É um modelo de mulher oposto àquele defendido pelo Estado Islâmico.

Julia Aurelia Zenobia, conhecida em árabe como Al-Zabba, tornou-se rainha de Palmira após a morte de seu marido, Septimius Odaenathus, em 267 d.C.  Ela conquistou os territórios ao redor de Palmira e chegou a controlar o Egito, após decapitar o líder romano Tenagino Probus.

Segundo a coleção clássica de biografias “Historia Augusta”, escrita em torno do século 4 d.C, o rosto de Zenóbia

[…] era escuro e de um tom moreno, seus olhos negros e poderosos para além do habitual. Seu espírito era divinamente grandioso, e sua beleza, incrível. Seus dentes eram tão brancos que muitos pensavam que ela tinha pérolas no lugar deles. Sua voz era clara e como a de um homem. Sua severidade, quando necessária, era a de um tirano. Sua clemência, quando ela pressentia ser justa, era a de um bom imperador.

Zenóbia olha pela última vez para Palmira. Pintura de Herbert Schmalz (1856–1935). Crédito Reprodução
Zenóbia olha pela última vez para Palmira. Pintura de Herbert Schmalz (1856–1935). Crédito Reprodução

Zenóbia avançou também nos territórios que hoje correspondem à Turquia, à Síria e ao Líbano –essenciais a Roma devido às rotas de comércio, que abasteciam o império, por exemplo, com o incenso vindo do sul da península Arábica. Em pouco tempo, as ambições da rainha de Palmira foram interrompidas pelo imperador romano Aureliano.

Derrotada, Zenóbia foi capturada no rio Eufrates em 272 d.C. Palmira foi pilhada após uma revolta popular, e há um lamentável paralelo com a destruição recentemente causada pelo Estado Islâmico.

Segundo alguns relatos, a rainha de Palmira foi levada a Roma e desfilada pelo imperador com grilhões de ouro em 274 d.C. Não há consenso sobre as circunstâncias de sua morte, que variam entre a decapitação –e a misericórdia de Aureliano.