O Brasil é um país antissemita?

Por Diogo Bercito

Hoje pela manhã, a caminho da aula de hebraico, sintonizei a estação israelense “Galei Tzahal” (rádio do Exército). Me surpreendi ao ouvir uma reportagem, já pela metade, em que uma brasileira comentava sua mudança a Israel e seu projeto de ser, um dia, porta-voz do Exército.

Também me surpreendeu, porém, a opinião dela de que o Brasil é um país antissemita. Um dos exemplos dados foi sua rotina na universidade. Ali, disse, era questionada sobre o conflito com os palestinos. Posso ter entendido mal, mas, pela descrição feita no rádio, dava a entender que a estudante era perseguida.

Só que eu não tenho certeza de que ela está certa. Na sequência, perguntei a amigos brasileiros, incluindo membros ativos da comunidade judaica, se eles pensam que o Brasil é um país antissemita. A dúvida no título deste post não é retórica.

Entendo, é claro, que a palavra “judiar” tenha uma raiz antissemita, e já ouvi impropérios relacionados a judeus. Há registros de casos de agressão, apesar de raros. Mas entendo também que cada vez mais as pessoas se dão conta disso e que, de toda maneira, são exemplos pontuais diante de casos graves de antissemitismo em lugares como a França ou em países de maioria árabe (escrevi recentemente sobre antissemitismo na Europa e sobre a sinagoga de Beirute).

Em busca de uma resposta mais objetiva, me deparei com uma pesquisa realizada pelo ADL Global, a “liga anti-defamação”. O Brasil aparece na lanterna do índice de antissemitismo, com 16% da população apresentando algum comportamento antissemita.

Representação do índice de antissemitismo do ADL Global. Crédito Reprodução
Representação do índice de antissemitismo do ADL Global. Clique para aumentar a imagem. Crédito Reprodução

A região mais problemática é o Oriente Médio e o Norte da África –92% de antissemitismo no Iraque, 88% no Iêmen e 56% no Irã, por exemplo. A média latino-americana está em 33%, com o Panamá na liderança (52%). Argentina e México apresentam índice de 24%, sempre de acordo com o estudo realizado pelo ADL Global.

A pesquisa é construída em cima de 11 afirmações, às quais os entrevistados –53 mil pessoas no mundo inteiro– responderam que são “provavelmente verdadeiras”. Judeus são mais leais a Israel do que ao Brasil? Provavelmente (42%). Têm muito poder no mundo dos negócios? Provavelmente (39%). Falam demais sobre o que aconteceu no Holocausto? Provavelmente (57%).

Não tenho certeza do quanto essas perguntas realmente dizem sobre antissemitismo. Algumas são mais diretas, mas também com índices bem menores, como “as pessoas odeiam judeus devido ao comportamento deles” (27%) e “judeus são responsáveis pela maior parte das guerras no mundo” (13%).

Trecho da pesquisa do ADL Global. Clique para aumentar a imagem. Crédito Reprodução
Trecho da pesquisa do ADL Global referente ao Brasil. Crédito Reprodução

Um amigo brasileiro-israelense comentou comigo hoje pela manhã –“As pessoas não acham que são antissemitas, porque acham que a opinião dela está certa”. Ele discorda de mim, e acredita que existem sim diversas demonstrações de antissemitismo no país.

Sei que diversos membros da comunidade judaica no Brasil leem este Orientalíssimo blog, alguns deles aliás felizmente bastantes críticos ao conteúdo. Então abro o espaço para o debate, se alguém estiver disposto a conversar sem recorrer à violência verbal: o Brasil é, afinal, um país antissemita?