Em declaração polêmica, Netanyahu diz que Holocausto foi ideia palestina

Por Diogo Bercito

O premiê israelense Binyamin Netanyahu tem sido alvo de crítica tanto entre israelenses quanto entre palestinos após ter dito que Adolf Hitler inicialmente não queria exterminar os judeus, mas foi convencido ao Holocausto por um líder religioso palestino.

O discurso de Netanyahu durante o 37º Congresso Sionista Mundial em Jerusalém foi mais um entre os tantos discursos violentos que têm marcado as últimas semanas nessa região, vindos de ambos os lados. Embates já deixaram ao menos oito israelenses e 46 palestinos mortos, parte deles durante ataques de palestinos contra israelenses.

Segundo o premiê israelense, o plano inicial de Hitler era expulsar os judeus da Alemanha. O “führer” mudou de ideia, diz Netanyahu, após a intervenção do líder palestino Haj Amin al-Husseini, grão-mufti de Jerusalém. “Se você expulsá-los, eles virão todos para cá”, teria dito Husseini, segundo o israelense. À época, antes da criação do Estado de Israel, o território da Palestina estava sob mandato britânico.

Haj Amin al-Husseini e Adolf Hitler, em imagem de 1941. Crédito Wikimedia Commons
Haj Amin al-Husseini e Adolf Hitler, em imagem de novembro de 1941. Crédito Wikimedia Commons

A ideia de Netanyahu sobre o Holocausto –um tema central na identidade israelense– foi criticada por historiadores e pela oposição. Especialistas no assunto discordam que a inspiração para o extermínio de 6 milhões de judeus tenha vindo de Husseini. O encontro entre o palestino e Hitler ocorreu em 28 de novembro de 1941, quando uma série de indícios já apontavam naquela direção. Segundo Meir Litvak, professor na Universidade de Tel Aviv, a ideia para o genocídio remonta a 1939.

Isaac Herzog, líder da oposição israelense, exigiu que Netanyahu corrija sua declaração, “pois minimiza o Holocausto, o nazismo e a participação de Hitler no terrível desastre de nosso povo”. Para Herzog, o premiê israelense deu argumentos aos que negam o Holocausto, ao não ater-se à história factual. Husseini de fato apoiava o regime nazista, e é inclusive responsabilizado pela morte do avô de Herzog. “Mas houve apenas um Hitler.”

Outra dura crítica veio de Zehava Galon, líder do partido de esquerda Meretz. “Talvez os 33.771 judeus mortos em Babi Yar em setembro de 1941 –dois meses antes do mufti e Hitler se encontrarem– devessem ser exumados e avisados de que os nazistas não queriam destruí-los”. Babi Yar é uma ravina ucraniana onde alemães massacraram milhares de judeus. Aqueles que não podem mudar o futuro, disse Galon, “acabam reescrevendo o passado”.

A Autoridade Nacional Palestina emitiu um comunicado, na sequência da declaração do premiê israelense. “Os esforços palestinos contra o regime nazista são uma parte enraizada de nossa história. A Palestina nunca irá esquecer, mas parece que o governo extremista de Netanyahu já se esqueceu”, afirmou Saeb Erekat, negociador-chefe palestino.

“Netanyahu culpou os palestinos pelo Holocausto e absolveu completamente o horrendo e condenável genocídio de Adolf Hitler contra o povo judeu. Seus lamentáveis comentários aprofundaram a divisão [entre israelenses e palestinos] justo em um momento em que uma paz justa e duradoura é mais necessária.”