Desmond Tutu pede que Caetano e Gil cancelem show em Israel

Por Diogo Bercito
O arcebispo Desmond Tutu discursa em Londres.  Crédito John Stillwell - 3.mar.2014/AFP
O arcebispo Desmond Tutu discursa em Londres. Crédito John Stillwell – 3.mar.2014/AFP

Após reiterados pedidos do músico inglês Roger Waters para que Gilberto Gil e Caetano Veloso cancelem sua apresentação em Tel Aviv, em 28 de julho, o arcebispo Desmond Tutu escreveu na sexta-feira passada (12) uma carta aos artistas com a mesma reivindicação. A Folha obteve com exclusividade o texto dessa mensagem.

Desmond Tutu, Nobel da paz, é uma das figuras mais icônicas da luta contra o regime segregacionista na África do Sul.

O show de Gilberto Gil e Caetano Veloso em Israel vem sendo debatido desde maio, com campanhas contra e a favor. Há uma petição com mais de 12 mil assinaturas. Organizadores do movimento de boicote acreditam que essa é uma ferramente eficaz para pressionar o governo israelense a abandonar uma série de práticas relacionadas à ocupação de territórios palestinos. Em meio à questão, Gilberto Gil falou ao “Estadão” que vai cantar “para um Israel palestino”.

Há movimentos também a favor das apresentações musicais em Israel, a partir do argumento de que não estão relacionadas ao conflito regional ou às ações militares israelenses em Gaza, usadas como justificativa para o boicote. O blog Conexão Israel, escrito por brasileiros vivendo no país, publicou recentemente um relato sobre o show de Roger Waters em território israelense em 2006 — “Isso mesmo! O atual rei do boicote cultural a Israel tocou aqui. Não importa se foi em Newe Shalom, Tel Aviv ou Beer Sheva. Ele veio, cantou, encantou, se emocionou.”

O artista comentou sua apresentação em Israel em uma entrevista recente à Folha. “Em 2007 a ONU me levou por toda a Cisjordânia, e era horrível. Todos os que vivem lá precisam ter direitos iguais.”

O Orientalíssimo blog publica exclusivamente, abaixo, a íntegra da carta enviada pelo arcebispo Tutu a Caetano e Gil.

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12 de junho de 2015

Caros Caetano e Gil,

Estou escrevendo a vocês para impeli-los a não se apresentar em Israel enquanto continua sua ocupação e apartheid contra o povo palestino. Quando um importante grupo musical sul-africano insistia em ignorar os apelos da sociedade civil palestina para cancelar sua apresentação em Tel Aviv, eu escrevi a eles: “Assim como dissemos durante o apartheid que era inapropriado para artistas internacionais se apresentarem na África do Sul, em uma sociedade fundada em leis discriminatórias e exclusividade racial, também seria errado a Ópera da Cidade do Cabo se apresentar em Israel.”

Nós, sul-africanos, sofremos décadas de apartheid e podemos reconhecer isso em outros lugares. Eu, pessoalmente, testemunhei a realidade de apartheid que Israel criou dentro de suas fronteiras e nos territórios palestinos ocupados. Eu vi as ruas ocupadas, colonizadas e racialmente segregadas de Hebron, as colônias exclusivamente judaicas, e eu andei ao lado do muro que divide famílias palestinas em Belém e impede suas crianças de terem acesso normal à escola. Eu vi o sistema racializado de carteiras de identidade, as cores diferentes para placas de carro, e as leis raciais que discriminam contra palestinos. Meus caríssimos Caetano e Gil, eu vi o apartheid israelense em ação.

Mas eu também conheci a luta não violenta do povo palestino para pôr fim ao regime de opressão que lhes nega seus direitos e dignidade. Eles têm apelado ao mundo para pressionar Israel, assim como foi feito contra a África do Sul do apartheid, para acabar com a ocupação e as violações de direito internacional. Eu tenho apoiado seu movimento não violento de boicote, desinvestimento e sanções (BDS) em busca da justiça, liberdade e igualdade para todos.

Se nós não podemos ao menos atender os apelos da sociedade palestina, abstendo-nos de minar sua resistência pacífica e aspirações por uma vida sem opressão, nós estaremos abandonando nossas obrigações morais. Em situações de opressão, a neutralidade significa tomar o lado do opressor.

Sem o isolamento internacional do regime de apartheid da África do Sul, incluindo o apoio ao boicote cultural, nós não poderíamos ter alcançado a nossa liberdade. Artistas conscientes que se recusaram a se apresentar em Sun City contribuíram para nossa marcha pela liberdade, e nós somos profundamente gratos pela solidariedade deles. Vocês mesmos nos apoiaram em face do apartheid. Então, vocês também podem apoiar a busca palestina por dignidade e direitos.

A performance de vocês está marcada para o próximo mês, um ano depois dos últimos brutais ataques israelenses à ocupada e sitiada faixa de Gaza. Milhares de irmãs e irmãos palestinos foram assassinados e muitos mais permanecem sem casa. Naquele momento, eu testemunhei os maiores protestos já vistos na África do Sul desde que libertamos nosso país do apartheid. As ruas da Cidade do Cabo foram tomadas por milhares de sul-africanos, homens e mulheres, jovens e velhos, colocando-se em solidariedade com o povo palestino.

Você, Gil, até cantou para nós: “Tornai vermelho todo sangue azul”. Você cantou ao “Senhor da selva africana”, dizendo que ela era “irmã da selva americana”. Eu acrescento: nossas selvas também são irmãs do vale do rio Jordão ocupado, das oliveiras em Jerusalém e dos pomares cítricos da Terra Santa.

Eu rogo a vocês que cancelem sua apresentação em Israel até o momento em que reine a liberdade e sua música não possa ser explorada por um regime opressivo para encobrir e perpetuar a opressão. Só então todos os palestinos — e israelenses — poderão viver sem opressão e verdadeiramente desfrutar de sua música.

Deus os abençoe.

Arcebispo Emérito Desmond Tutu

Cidade do Cabo, África do Sul