Milícia cobra imposto de cristãos

Por Diogo Bercito
Membros do grupo Estado Islâmico aparecem com prisioneiros em alguma parte do sudeste da Líbia. Crédito Associated Press
Membros do Estado Islâmico aparecem com prisioneiros na Líbia. Crédito Associated Press

Exceto pelos últimos minutos abomináveis, onde militantes decapitam cristãos etíopes, o vídeo divulgado neste domingo (19) pelo Estado Islâmico é um interessante documento para aqueles que estudam essa violenta organização terrorista.

As imagens —quase 30 minutos— são uma longa argumentação teológica sobre a razão pela qual cristãos estão equivocados e, dessa maneira, porque é imperativo que se convertam ao islã. As cenas de barbárie estão no final do vídeo e, com algum cuidado, podem ser evitadas.

O Estado Islâmico expõe, ali, sua visão do conceito de “jizya”, uma espécie de imposto cobrado de não muçulmanos. A prática, prevista pelo Alcorão e praticada durante séculos, praticamente desapareceu no século 20.

No Alcorão, a recomendação aparece em Al-Tawbah 9:29, onde está escrito que um muçulmano deve lutar contra quem não acredita em Deus “até que eles paguem a ‘jizya’”. Não está claro o que significa o tal imposto, e sua definição surge apenas em outras tradições islâmicas posteriores.

Trecho do Alcorão que menciona a "jizya". Crédito Quran.com
Trecho do Alcorão que menciona a “jizya” (na terceira linha). Crédito Quran.com

Vista hoje, a cobrança contraria conceitos básicos da democracia. Mas, em seu contexto histórico, a “jizya” funcionava como uma espécie de garantia de que minorias religiosas poderiam manter seus rituais e estar isentas de obrigações impostas à maioria muçulmana.

No vídeo divulgado pelo Estado Islâmico, cristãos aparecem em uma sala de aula sendo doutrinados por militantes armados. Alguns deles dão depoimentos à câmera sobre como têm conseguido praticar sua religião ali, mediante o pagamento da “jizya”. As imagens são pouco convincentes, já que nos últimos meses há inúmeros relatos de perseguição e morte de cristãos, incluindo casos de crucificação.

Assim, em sintonia com a selvageria que é típica dessa organização terrorista, o vídeo se encerra com as imagens de cristãos etíopes na Líbia sendo mortos ou por tiro, ou por decapitação. As imagens são fortes e não valem a visualização.

Mas vale a reflexão: a construção da narrativa, culminando na cena grotesca da decapitação, sinaliza que o Estado Islâmico está menos interessado na teologia do que no espetáculo em si.

Afinal, a instituição da “jizya” e a perseguição religiosa são relíquias que nenhum líder religioso defenderia hoje— mas a violência contra cristãos tem um impacto garantido nos públicos interno e externo, de onde essa organização terrorista recruta fundos e recrutas.