O embaixador e o Oriente Médio

Por Diogo Bercito
Prédios destruídos em Gaza, meses após a mais recente ofensiva de Israel. Crédito BBC
Prédios destruídos em Gaza, meses após a mais recente ofensiva de Israel. Crédito BBC

O diplomata Anuar Nahes, que foi embaixador do Brasil em Doha e em Bagdá, me escreveu recentemente, espantado com o nível de desconhecimento sobre o Oriente Médio. Ele me narrava sua surpresa diante, por exemplo, de artigos publicados durante o confronto militar entre Israel e Hamas, no ano passado. Como conhece bem o tema –Nahes tem duas décadas de experiência na região– , ele me propôs esclarecer alguns conceitos relacionados ao tema.

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A MENSAGEM DO ANUAR
Nas últimas semanas, durante o mais recente conflito entre o braço militar do Hamas e o Exército israelense, muito se escreveu ou se falou sobre o assunto em si ou sobre vários aspectos a ele vinculados.

Alguns o fizeram por legitimamente desejar expressar suas opiniões pessoais ou de organizações que representam; outros, por dever de ofício, sobretudo no caso de jornalistas. O debate criado em torno dessas opiniões é saudável –e mesmo desejável– num país onde vige a democracia, sobretudo porque o contraditório pode motivar reflexões mais profundas.

Não obstante, muitas das opiniões manifestadas ao público revelaram tendências em favor de uma ou de outra parte litigante, o que também é normal em sociedades democráticas. Mas boa parte delas revelou desconhecimento –ou conhecimento superficial– da intrincada política do Oriente Médio e misturaram conceitos e definições que podem confundir ainda mais o leitor ou, o que é mais grave, induzi-lo a assumir posturas preconceituosas.

Por isso, como leitor do teu blog e da Folha, sugeriria precisarmos alguns termos e conceitos aos leitores, a fim de contribuir para clarear um pouco o complexo panorama político, a cultura e outros aspectos da região.

ÁRABE
Segundo definido pela Liga dos Estados Árabes em 1946, é o indivíduo cuja língua nativa seja o árabe, que viva num país de língua árabe e se identifique com as aspirações desses povos. Trata-se, portanto, de uma definição de natureza cultural. Consequentemente excluem-se aspectos étnicos, raciais ou confessionais.

Países-membro da Liga Árabe, por década de adesão.
Países-membro da Liga Árabe, por década de adesão

ISRAELENSE
Indivíduo nascido no Estado de Israel (ou naturalizado), a partir de 1948. Nele vivem judeus, muçulmanos e cristãos, entre outras confissões religiosas, bem como israelenses, árabes, russos, iemenitas, entre outras nacionalidades e etnias.

TURCO
Indivíduo nascido (ou naturalizado) na moderna República da Turquia, fundada em 1923 por Mustafá Kemal Ataturk, território remanescente do Império Otomano, que, no seu apogeu, incorporava povos das mais diversas etnias e religiões, mas era governado pelos turcos descendentes da tribo de Uthman (Osman, em português; daí o nome “Otomano”). Os turcos modernos são parte de diversos povos étnica e linguisticamente turcos, hoje assentados entre a Europa (Istambul e adjacências) e a China (uigures, na província autônoma de Xinjiang). Em sua grande maioria professam o islã como religião. No Brasil, árabes, judeus e armênios são confundidos com turcos, porque, no início da imigração desses povos para o Brasil (final do século 19), eles habitavam em regiões integrantes do Império Otomano e, como tal, tinham a nacionalidade “turca” registrada em seus passaportes.

JUDEU
Indivíduo adepto ou praticante do o judaísmo, religião monoteísta que remonta ao patriarca bíblico Abraão. Ao longo de sua milenar e conturbada história, judeus emigraram ou foram forçados a emigrar para as mais diversas partes do globo. Como diversas outras religiões, o judaísmo é dividido em várias seitas e práticas, mas todas convergem na existência de um só Deus.

CRISTÃO
Indivíduo adepto ou praticante da religião derivada dos ensinamentos de Jesus, judeu nascido na Galileia. Esses ensinamentos, portanto, incorporam as tradições e ensinamentos consolidados na Torá, a Bíblia judaica. Os quatro livros que compõem o Novo Testamento (os evangelhos), base da religião que se veio a denominar posteriormente Cristianismo, foram escritos cerca de um século depois da morte de Jesus. Tal como o judaísmo, o cristianismo também se divide em várias seitas e práticas, mas todas convergem na existência de um só Deus. A diferença está na aceitação ou não do Cristo como sendo o filho de Deus e na crença na Santíssima Trindade.

MUÇULMANO
Indivíduo que professa o islã, religião monoteísta fundada pelo profeta Maomé no século 7 d.C. Também incorporou em sua doutrina os profetas e a tradição religiosa judaica e cristã e considera Jesus (Issa, em árabe) o penúltimo profeta da linha que remonta a Abraão. Para os muçulmanos, Maomé é o último profeta dessa linhagem e o Corão, livro que consolidou os ensinamentos de Maomé após a sua morte, é a última revelação de Deus. Também divide-se em várias seitas (sunitas, xiitas, alauítas, drusos), mas todos convergem na existência de um único Deus e em que Maomé é o último profeta por ele enviado.

SEMITA
Grupo linguístico afro-asiático que, além do hebraico e do árabe, compreende línguas como hebraico, aramaico, assírio e fenício. No Oriente Médio ainda há povos que ainda falam e escrevem o aramaico (siríaco, na Síria) e o assírio (no Iraque). O nome “semita” deriva de Sem, um dos filhos de Noé na tradição bíblica. Os termos “anti-semita” e “anti-semitismo”, vistos desse ângulo, deveriam aplicar-se às pessoas que tem preconceito contra todos os povos de língua semítica, mas acabou se restringindo seu uso para designar preconceito (ou ódio) contra os judeus de um modo geral.

HEBREU, HEBRAICO
Hebreu se refere aos antepassados dos judeus. Acredita-se que esse povo tenha migrado de Canaã, onde se havia assentado, para o Egito, onde permaneceu entre 300 a 400 anos. O retorno dos hebreus a Canãa, entre 1300 e 1240 a.C, é conhecido na tradição judaica como o Êxodo. Hebraico é a língua semítica hoje falada em Israel. Com a diáspora dos judeus após o ano 70 d.C, o hebraico sobreviveu como língua restrita às cerimônias religiosas. Resgatada após a criação do Estado de Israel, em 1948, e hoje é a língua oficial do Estado de Israel.

FUNDAMENTALISMO
Corrente das três grandes religiões monoteístas ou abraâmicas (judaísmo, cristianismo e islã) que propugna o retorno aos fundamentos iniciais de suas respectivas religiões, hoje, no entender dos “fundamentalistas”, corrompidas pelo materialismo e cientificismo modernos. No islã, esses fundamentalistas também são chamados de islamitas.

SIONISMO
Movimento político e filosófico, consolidado e fundado em 1892 com base na obra do jornalista e escritor Theodor Herzl, “O Estado Judeu”. Deve ser visto no contexto dos movimentos de autodeterminação dos povos e da criação de Estados nacionais em voga na Europa no Século 19. Preconizava o direto dos judeus a um Estado Nacional, a ser fundado (ou refundado, para alguns) na terra história de Israel (“Sion” é o nome de uma das colinas que conformam a cidade de Jerusalém). Em seu livro, Herzl vislumbrava duas opções para o sítio onde o novo Estado deveria ser criado: na Argentina ou na Palestina, opção esta que acabou por prevalecer nas discussões que se seguiram ao lançamento do livro (v. Herzl, Theodor: O Estado Judeu, ed. Organização da Pioneira Judia, São Paulo, 1949, p. 66) . O sionismo ainda é por muitos percebido, erroneamente, como uma forma de racismo ou discriminação racial. Essa concepção chegou mesmo a ser endossada pela ONU (Resolução 3379, da Assembleia Geral, 1975, com voto favorável do Brasil), revogada em 1991 (também com o voto favorável – e patrocínio – do Brasil).

Theodor Herzl, fotografado na Suíça em 1897.
Theodor Herzl, fotografado na Suíça em 1897.

TERRORISMO
A resolução 1566 do Conselho de Segurança da ONU definiu a prática, em 2004, como “atos criminosos, inclusive contra civis, com o intuito de causar morte ou sérios ferimentos, ou a tomada de reféns com o intuito de provocar um estado de terror no público geral ou em um grupo de pessoas ou pessoas em particular, intimidar uma população ou forçar um governo ou uma organização internacional a fazer ou abster-se de executar uma ação […]. Sob nenhuma circunstância é justificável por considerações políticas, filosóficas, ideológicas, raciais, étnicas, religiosas ou de outra natureza similar”. Quem já foi classificado de “terrorista” no passado, porém, pode ser hoje celebrado como “herói de guerra”. Heróis da guerra de independência dos EUA, por exemplo, certamente em algum momento foram considerados terroristas pelo governo do Reino Unido. Em Israel, Itzhak Shamir, ex-Primeiro-Ministro, era considerado terrorista pelos colonizadores britânicos e, pelos judeus, herói da luta pela independência. Yasser Arafat, durante anos acusado de terrorista, terminou seus dias na Cisjordânia como Presidente da Autoridade Palestina, sediado em Ramallah. No Brasil, Fernando Gabeira e José Dirceu foram considerados terroristas pelos militares durante a ditadura.

Ficaremos contentes se os leitores quiserem contribuir com comentários ou acréscimos sobre estes ou outros aspectos e conceitos relacionados com o Oriente Médio. Por exemplo: Pérsia, Irã, farsi, Curdistão, Houthis e, mais além, talibã, Al Qaida, Estado Islâmico, Boko Haram. E por aí vai.