A ressaca da esquerda israelense

Por Diogo Bercito
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Depois de uma semana intensa cobrindo as eleições israelenses, em que venceu mais uma vez o premiê Binyamin Netanyahu (do partido Likud), acordei nesta quarta-feira (18) em um país que está mais à direita do que se imaginava. A imagem mais precisa que encontrei durante a manhã estava no mural do Facebook de uma brasileira-israelense residente em Tel Aviv: “7-1”.

O placar da Copa de 2014, quando o Brasil foi goleado pela Alemanha, resume bem a ressaca da esquerda local. O número traz à memória, afinal, uma sensação semelhante de derrota diante da ilusão de vitória.

Na terça-feira, enquanto iam às urnas, eleitores me diziam estar confiantes no que apontavam as pesquisas –a União Sionista, de centro-esquerda, conquistaria mais assentos e no Parlamento e poderia montar uma coalizão. O Likud, de Netanyahu, seria empurrado para o abismo do fracasso político.

A impressão, compartilhada pela mídia local e internacional, foi reforçada durante o dia da eleição, quando Netanyahu foi a público alertar quanto ao “risco” diante do fato de que a população árabe-israelense estava votando. O comentário, recebido pela crítica como racista e odioso, era sintoma do desespero do premiê. Incentivaria ainda mais a esquerda a votar. Seria o último suspiro de Netanyahu, apelidado “Bibi”.

Mas o resultado da apuração de votos abriu as cortinas e mostrou outro cenário. Netanyahu recebeu 30 cadeiras no Parlamento (contra 24 da União Sionista) e, louvado por seus aliados como “mago político”, deve tornar-se o premiê com mais tempo de cargo no país. A posição só será confirmada após o presidente Reuven Rivlin entregar-lhe oficialmente a tarefa de montar uma coalizão e Netanyahu ter sucesso nisso –mas, com o número de assentos dos partidos aliados, não será tão improvável.

A esquerda sai enfraquecida. Diante da derrota, Zehava Galon, líder do partido de esquerda Meretz (4 assentos), afirmou pela manhã que irá renunciar. A auto-crítica, publicada em seu perfil de Facebook, é interessante:

É muito difícil para mim. Eu estava esperando que o Meretz mantivesse sua força e que pudéssemos criar um governo alternativo e acabar com a era de Netanyahu. Infelizmente isso não foi o que aconteceu. Se o público em Israel optou por reduzir o poder do Meretz, se escolheu dar um outro termo para Netanyahu, é responsabilidade do partido fazer um exame de consciência para encontrar a bússola e a direção.

Além do Likud, a única força política que parece realmente comemorar é a Lista Compartilhada, que reúne partidos árabe-israelenses e conquistou 14 cadeiras no Parlamento –mas, em um governo liderado por Netanyahu, que na segunda-feira (16) afirmou que não haverá um Estado palestino durante seu mandato, tampouco parece que estejam ululando de felicidade.