A mídia árabe sobre o “Charlie Hebdo”

Por Diogo Bercito
Capa do jornal "al-Sharq al-Awsat" de quinta-feira (8). Crédito Reprodução
Capa do jornal “al-Sharq al-Awsat” de quinta-feira (8). Crédito Reprodução

Na capa do jornal pan-árabe “al-Sharq al-Awsat” a manchete, em árabe: مذبحة في اجتماع التحرير. Em português: Massacre na reunião editorial.

Tem sido comum ver nas mídias sociais e na cobertura das redes internacionais de TV comentários de que é necessária uma forte condenação por parte do mundo islâmico em relação ao atentado terrorista que, na quarta-feira (7), matou 12 pessoas na redação da publicação satírica “Charlie Hebdo”. A ideia ignora, porém, dois aspectos.

O primeiro: sugerir uma culpa ou responsabilidade coletiva parte do entendimento de que haja um mundo dividido entre “nós” e “os muçulmanos”. Quando, na verdade, o ataque desta semana foi realizado por três terroristas em um universo de milhões de muçulmanos –que, ademais, dirão que a interpretação radical da religião feita pela Al Qaeda ou pelo Estado Islâmico é contrária ao islã. Enviado especial a Paris, ouvi por aqui árabes cansados de ser equiparados a “terror”.

O segundo fato deixado de lado é: a população muçulmana já condenou os ataques. O levantamento da cobertura jornalística no mundo árabe, feito por exemplo pela britânica BBC e pelo israelense “Haaretz”, mostra uma imprensa tão crítica quanto a europeia ou a americana diante do atentado ao “Charlie Hebdo”.

O “al-Sharq al-Awsat” fala em massacre. O argelino “al-Fadjr”, também. O egípcio “Al-Yawm al-Sabi” afirma que o ato deixa evidente que “ninguém está a salvo”. O cartunista argelino Ali Dilem, por sua vez, desenhou um homem morto escrevendo com o próprio sangue: “os idiotas me mataram”.

Uma das críticas mais contundentes veio, como talvez fosse de se esperar, do libanês “al-Nahar” –o editor-chefe, Gebran Tueni, e o colunista Samir Kassir foram mortos em 2005. O cartunista Armand Homsi desenhou, para esse jornal, um lápis afiado desafiando um rifle Kalashnikov. O editorial de quinta-feira dizia:

Todos os jornalistas assassinados são uma tocha iluminando o caminho para outros jornalistas. Não importa o quanto eles tentem silenciar a mídia, a palavra escrita continua a ser uma bomba relógio que um dia irá explodir na cara do terrorismo e de todos os terroristas.