Em Bagdá, fugindo dos tigres e dos eufrates

Por Diogo Bercito
Bagdá. Ao fundo, o rio Tigre. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Bagdá. Ao fundo, o rio Tigre. Crédito Diogo Bercito/Folhapress

Eu devia ter 11 ou 12 anos quando minha mãe, historiadora, se divertia na sala de estar diante de uma prova escolar que ela corrigia.  À pergunta “comente a relação entre o Tigre e o Eufrates e a civilização na Mesopotâmia” um aluno havia respondido que “os homens naquela região se alimentavam de tigres e de eufrates”. Não sei por que, mas nunca me esqueci dessa tarde.

A memória voltou na semana passada quando vi ambos os rios da janela de um avião que pousava primeiro em Basra, no sul iraquiano, e finalmente de outra aeronave voando em direção à capital, Bagdá. Eu tinha realizado o sonho de rever o Eufrates que eu havia conhecido em 2010, na Síria, e de conhecer o Tigre. As ideias eram imperiais.

Palmeiras em Bagdá. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Palmeiras em Bagdá. Crédito Diogo Bercito/Folhapress

Mas a Bagdá real, para além da memória do califado de Harun al-Rashid, é uma imagem difícil. A ditadura de Saddam Hussein, a ocupação americana de 2003, a violência sectária e o recente surgimento da organização terrorista Estado Islâmico deixaram a sua marca na cidade: o medo. A arquitetura é marcada pelos blocos de concreto que protegem edifícios das explosões dos frequentes carros-bomba, e soldados bloqueiam ruas em toda a capital em busca de explosivos nos veículos que passam.

Vocês vão ler, durante este mês, uma série de reportagens que produzi para a Folha sobre Bagdá e o Iraque. Foi publicado no domingo (7), por exemplo, o meu texto sobre como a capital iraquiana está se reinventando diante do desafio imposto pelo Estado Islâmico (clique aqui). O material vai respingar neste Orientalíssimo blog, assim como no Mundialíssimo (clique aqui) e na minha conta de Twitter @DiogoBercito (aqui).

Uma das impressões mais marcantes em Bagdá, para além da tensão em relação à segurança –atentados mataram dezenas de pessoas durante a minha passagem ali–, é o verde das palmeiras que nascem em toda a capital. Também chama a atenção a atmosfera intelectual que, apesar do esforço destrutivo da última década, ainda resiste ali. Na rua al-Mutanabi, por exemplo, comprei uma edição dos anos 1960 da poesia do abássida Abu Nuwas. No café Shahbandar, nos arredores, homens se sentavam para fumar e tomar chá, como se diz que fazem há décadas.

Bagdá foi fundada no século 8 no ponto em que os rios Tigre e Eufrates se aproximam em seus caminhos. O nome “Tigre” veio assim via grego, parecendo-se com o do animal, mas na verdade se refere ao sumério “idigna”, “rio veloz”. “Eufrates” pode ter origem no proto-sumério “burudu”, “cobre”, em referência ao metal que era escoado por essas águas.

Nenhum dos dois é um bicho comestível, ao contrário do que pensava o aluno.

Mesquita em Bagdá. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Mesquita em Bagdá. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Fios de eletricidade no centro de Bagdá. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Fios de eletricidade no centro de Bagdá. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Restaurante em Bagdá. Retrato de Abbas. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Restaurante em Bagdá. Retrato de Ali. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Rua na capital iraquiana. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Rua na capital iraquiana. Crédito Diogo Bercito/Folhapress