Vaivém democrático na Tunísia

Por Diogo Bercito
Homens contam votos após eleição parlamentar em Túnis. Crédito Pan Chaoyue - 26.out.2014/Xinhua
Homens contam votos após eleição parlamentar em Túnis. Crédito Pan Chaoyue – 26.out.2014/Xinhua

Os resultados oficiais devem ser divulgados ao longo do dia, mas sondagens já apontam vitória do partido secular Nidaa Tounes nas eleições parlamentares tunisianas deste domingo (26) –fazendo desse grupo a força mais importante no Parlamento da Tunísia e finalizando, assim, o processo pelo qual os islamitas do Ennahda gradualmente perderam a liderança política no país.

Essas eleições têm sido entendidas, por analistas, como históricas. São as segundas desde a deposição do ditador Zine al-Abdine Ben Ali no início da Primavera Árabe, em 2011, e levarão ao estabelecimento do primeiro Parlamento para o mandato de cinco anos. Anteriormente, a vida parlamentar vinha sendo conduzida de maneira interina e conflituosa, durante a adaptação da Tunísia ao seu momento pós-ditadura.

Mas as eleições tunisianas em si podem ser vistas como um entre tantos sinais de que o Ocidente, apesar do maquinário de think tanks e de arabistas universitários, não entende o que descreve como “mundo árabe”. Países como Tunísia, Egito e Síria têm desafiado o que pensávamos deles, como mostraram as próprias manifestações populares e deposições encadeadas a partir da queda de Ben Ali.

Um exemplo: em algum momento nas últimas duas décadas, se imaginou que os movimentos islamitas perderiam força e dariam lugar à ideia de um islã alinhado aos direitos civis. É o “pós-islamismo” imaginado por pensadores como Oliver Roy e criticado por uma sorte de outros especialistas.

A ideia, no entanto, tornou-se de alguma maneira inadequada para descrever a realidade desses países. Após suas revoluções, o Egito elegeu a Irmandade Muçulmana à Presidência e a Tunísia deu a maioria de seu Parlamento para o partido islamita Ennahda. Ambos os votos indicavam para o fortalecimento em toda a região de um projeto político legitimado pelo islã, ao contrário do previsto pelos teóricos do pós-islamismo.

Mas o islã político da Irmandade Muçulmana, diante de seu fracasso em satisfazer as demandas populares no Egito, foi derrubado do governo em 2012 por um golpe militar. Na Tunísia, o assassinato de líderes seculares e uma onda de manifestações levaram ao estabelecimento de um Parlamento tecnocrata, no lugar do islamita –dando lugar nesta semana, ao que parece, a uma maioria parlamentar secular. Ou seja, também parece que estava equivocada a ideia da tomada regional das forças do islã político.

A notícia de tantos desencontros é, porém, positiva. A Tunísia, onde aliás a Primavera Árabe primeiro floresceu, sugere um processo histórico de consolidação das instituições democráticas, além da variedade das forças políticas, depois de décadas de ditadura. É possível que estejamos, de novo, enganados. Mas, por ora, mantemos a esperança de um governo em coalizão entre seculares e islamitas na Tunísia, depois de anos de exclusão ora de um grupo, ora de outro.