DVDs brasileiros viajam ao Cairo

Por Diogo Bercito

A diretora Marianne Khoury, que esteve em São Paulo durante a Mostra Mundo Árabe de Cinema, voltou ao Cairo com DVDs de filmes brasileiros na bagagem –ela deve montar, ao redor de abril do ano que vem, uma mostra egípcia com esses longas, cujos nomes ainda não divulga.

Tive o prazer de conversar com ela ao telefone, algumas semanas atrás. Discutimos sobre o projeto, mas também sobre a sua trajetória. Ela é, afinal, duas vezes herdeira na arte de filmar.

Nascida no Egito, Khoury em primeiro lugar dá continuidade ao cinema árabe no país em que essa indústria é mais tradicional. Sobrinha de Youssef Chahine, responsável pelo clássico “Adieu Bonaparte” (1985), ela também carrega a arte como ofício de família.

Mas Khoury tem usado a estrutura fundada por Chahine, a produtora Misr International Films, não mais para realizar os próprios longas, mas também para incentivar as criações de jovens que filmam pela primeira vez nesse país.

“O cinema independente está tentando existir no Egito”, diz. Em parte pelo aparato que sufoca a modalidade, exigindo o envio de roteiros ao governo antes de rodar. É necessário pedir, em seguida, outra autorização antes de estrear um filme.

“Você tem a censura do Estado e também a do público”, afirma Khoury. “Recentemente retiraram de cartaz filmes com cenas de sexo, depois de já terem permitido a exibição.” O desenvolvimento de um mercado independente, incrementado pelas produções feitas durante as revoltas de 2011, é para a diretora fundamental ao Egito —em que, diz, a deposição do ditador Hosni Mubarak não alterou em nada o cenário político.

O islamita Mohammed Mursi foi eleito, então deposto, e hoje o país é governado pelo ex-chefe militar Abdel-Fatah al-Sisi. “Há muito o que fazer aqui, e os filmes abrem os olhos da população para esses problemas.”

Khoury tem uma visão apurada especificamente para as questões sociais, e ela tem se dedicado a registrar as vidas dos marginalizados. O filme que trouxe ao festival no Brasil, “Zelal” (2010), acompanha a vida dos internos em dois grandes hospitais psiquiátricos no Cairo.

Quando visitou as instituições, a diretora não encontrou apenas uma coleção de enfermos. Ela viu, ali, uma imagem do próprio Egito, no preocupante microcosmo. “Os personagens representam os elementos da sociedade egípcia”, diz. “Não são necessariamente doentes. Há, por exemplo, uma mulher internada por ter se recusado a casar. Alguns deles são pessoas brilhantes.”

Quando exibiu o filme em São Paulo, Khoury participou de debates e notou a semelhança entre o Brasil e o país em que nasceu. “Ambos são nações ricas em que vivem muitos pobres”, diz.

A mostra de cinema brasileiro que ela quer organizar no Cairo deverá ter o apoio do brasileiro Instituto da Cultura Árabe na curadoria. “O cinema egípcio é o mais antigo e consolidado no mundo árabe”, diz Geraldo Campos, diretor cultural do ICArabe e curador da Mostra Árabe de Cinema.