Você deve seu “zagueiro” ao mundo árabe

Por Diogo Bercito
Themba Hadebe/Associated Press
Themba Hadebe/Associated Press

Eu me vi, durante minha passagem pelo Brasil, arrastado para assistir a uma partida da Copa nas quadras de uma escola de samba paulistana. Entre escanteios, tiros de meta e cobranças de falta, uma palavra me chamou a atenção: “zaga”, a posição de jogadores como o descabelado brasileiro David Luiz. Não me pareceu ser de origem latina – e então desconfiei.

Sem surpresa, constatei que o vocábulo –que você certamente vai ouvir neste sábado, quando assistir à partida da Seleção– tem origem na língua árabe. “Zaga” é a versão aportuguesada do árabe “saqa”, denominando a “parte posterior de algo” e, a partir da Idade Média, especificamente a “retaguarda de um Exército”.

A ideia de “retaguarda” e, pelo uso, de “defesa” conquistou o vocabulário da língua portuguesa, assim como diversas outras palavras árabes. A península Ibérica, afinal, esteve por séculos durante domínio árabe, até a reconquista pelas mãos dos reis cristãos no século 15.

A “zaga” se instalou no português no ano de 1111, de acordo com o dicionário Houaiss. No espanhol, aparecia no “El Cantar de Mio Cid”, em 1140. Hoje, significa em português o “conjunto de militares situados na retaguarda de uma tropa”. Mais especificamente no regionalismo brasileiro, a “zaga” é o “conjunto formado pelos dois zagueiros” ou a “posição recuada e defensiva que estes jogadores ocupam no campo de futebol”.

A língua árabe é, quer queiram ou xenófobos ou não, uma das fontes mais ricas para a construção dos edifícios das línguas ocidentais. O contato em situação de adstrato, convivendo ao lado das línguas românicas na Europa, teve um forte impacto na região.

O número de empréstimos do árabe no português é controverso, indo de 4.000 (segundo W. D. Elckoc) a 609 (segundo Serafim da Silva Neto). São em geral parte de um léxico concreto, em palavras como “açúcar”, “açafrão”, “azeite” e “alfafa”. Também “zaga”, é claro.

A história dessas palavras é, como as histórias dos imigrantes que vieram ao Brasil, interessantíssima. “Zagueiro”, por exemplo, era após a Idade Média considerada de uso vulgar na Espanha. Juan de Valdés escreveu, em “Diálogo de la Lengua” (1535), que “tampouco digo ‘cabero’ nem ‘çaguero’ porque [essas palavras] estão desterradas da boa fala e servem em seu lugar [as palavras] ‘último’ e ‘posterior’.”

Ricardo Soca escreve em “La Fascinante Historia de las Palabras” e em “Nuevas Fascinantes Historias de las Palabras” que a palavra “zagueiro” teve pouco uso na Espanha até reaparecer no século 19 no contexto esportivo. No século seguinte, ganhou repercussão internacional nos países de fala espanhola, substituindo o termo americano “back” (“atrás”), dito no Brasil “beque”.