O que significa um “califado islâmico”?

Por Diogo Bercito

 

Militantes do Estado Islâmico no Iraque e no Levante
Militantes do Estado Islâmico no Iraque e no Levante

Militantes do EIIL (Estado Islâmico no Iraque e no Levante) declararam, na semana passada, a instituição de um “califado islâmico” em seu território recém-conquistado. Eles elegeram um califa, convidaram muçulmanos a se unir ao “Dar al-Islam”, declararam a necessidade de empreender o “jihad” –e deixaram, assim, espectadores estupefatos em todos os seus arredores.

A notícia é terrível. A visão rígida que esses militantes têm do islã significará que, enquanto tiverem o controle de qualquer território, irão impôr ali a lei violenta da fé. Eles proibirão de música à presença de mulheres nos espaços públicos e eliminarão, na ponta da lança, os “kafirin”.

As novas são, também, complexas. Li recentemente o documento da declaração oficial do califado, em um texto repleto de referências à história e pensamento islâmicos. Vocês podem ler clicando aqui. Mas pensei que pudesse ser útil discutirmos neste Orientalíssimo blog alguns dos conceitos por trás do projeto do Estado Islâmico.

Não são ideias simples. A própria ideia de califado, para esses islamitas, exige uma definição rígida. A empreitada tem por modelo o governo instituído logo após a morte do profeta Maomé, durando de 632 a 661. É o período dos califas “rashidun”, ou “corretamente guiados” — Abu Bakr, Omar, Uthman e Ali. “Califa” significa “sucessor”, em árabe.

Após essa experiência, os povos árabes e arabizados, e os povos islâmicos e islamizados, foram liderados por dinastias, até o sistema de califado ser oficialmente abolido em 1924 após a destituição do Império Otomano. Durante esses séculos, muçulmanos olharam para os califas “rashidun” como seu modelo de governo. É onde estão, também, os olhos do Estado Islâmico — apesar de eles praticarem uma ideia de islã distante daquela sonhada pelos primeiros muçulmanos.

“A ‘umma’ [comunidade islâmica] não sentiu o sabor da honra desde que a perdeu. É um sonho que vive no interior de todo o muçulmano crente. É uma esperança que existe no coração de todo ‘mujahid’ e monoteísta. É o califado. É o califado — a obrigação abandonada de uma era”, diz o texto do EIIL.

Mencionei no início do texto, ainda, a ideia de “Dar al-Islam”. É a “casa do islã“, uma das categorias em que o pensamento islâmico divide o mundo. O outro sendo “Dar al-Harb”, a “casa da guerra”. Enquanto no primeiro o islã é majoritário e o muçulmano pratica sua religião livremente, no segundo a religião islâmica não está instituída pela lei e sua ausência culmina em atrito.

Também será importante, para acompanhar o noticiário, principalmente para quem for às fontes primárias, entender o que os islamitas se referem como “jihad“. A tradução desse termo é controversa, porque a rigor ele significa apenas “esforço” –mas passou a designar um esforço específico e belicoso em prol de defender e prolongar o islã.

Se Maomé se referia a um “jihad” maior, interior e pacífico, hoje os “mujahidin” (“esforçados”, nome dado a militantes) entendem a ideia por um viés violento. Assim, a declaração do califado islâmico afirma no texto que “o Sol do ‘jihad’ se levantou. O triunfo está no horizonte. Os sinais da vitória apareceram”.

Em geral, o alvo desse esforço são os “kafirin”, ou “infiéis“, que aparecem no pensamento islamita do Estado Islâmico do Iraque e do Levante como descrentes que preferem ignorar a mensagem do islã. Os “kafirin” não serão bem-vindos no califado instituído entre a Síria e o Iraque, e a ascensão dessa força na região preocupará, evidentemente, suas minorias, como os cristãos e os muçulmanos do ramo xiita. “Hoje os kafirin estão enfurecidos de tal maneira depois da qual não haverá fúria similar. Muitos deles irão quase morrer de raiva e de tristeza”, diz o texto do EIIL.