Gertrude Bell, a espiã que criou o Iraque

Por Diogo Bercito
Gertrude Bell, uma das responsáveis pela criação do Iraque moderno. Crédito Reprodução
Gertrude Bell, uma das responsáveis pela criação do Iraque moderno. Crédito Reprodução

Um jornal iraquiano informava, em uma edição de 1926, a morte da diplomata britânica Gertrude Bell, aos 58 anos. “Ela estava trabalhando até tarde no domingo, e ela é conhecida por ser trabalhadora, e pela manhã foi encontrada morta”. Ao que o jornal encobertava o aparente suicídio de Bell, morta por uma overdose de pílulas para dormir.

Você talvez não conheça essa história. Mas Bell (1868-1926) foi, de acordo com uma reportagem recente do “New York Times” (clique aqui para ler), uma das figuras mais influentes do Oriente Médio no início do século 20, tendo tido mais importância ali do que o lendário Lawrence da Arábia. A essa diplomata e espiã é creditado o feito de ter estabilizado e formado a sociedade iraquiana após o esfacelamento do Império Otomano (1299-1923), criando a dinastia de reis que brevemente governaria o novo país.

Quem não estiver familiarizado com a história terá a chance de se aproximar dessa curiosa figura. Ela será o assunto de um filme com atuação de Nicole Kidman e terá um documentário (clique aqui) sobre sua vida. Ambos os lançamentos farão parte de um movimento mais amplo de resgate do legado de Bell, com uma conferência acadêmica organizada em Londres no ano passado e uma série de biografias disponíveis para a leitura.

Mas talvez o súbito interesse por essa aventureira venha em péssimo momento. Os esforços europeus em traçar as linhas do Estado iraquiano, no que Bell teve papel fundamental, parecem estar sendo esfarelados — neste mês, guerreiros do Estado Islâmico no Iraque e no Levante tomaram partes do Iraque e da Síria, ameaçando a história dessas fronteiras. O violento confronto sectário entre sunitas e xiitas, exacerbado pela invasão americana de 2003, parece gritar que o Acordo Sykes-Picot –que em 1916 estabeleceu a divisão do Oriente Médio– ainda cobra seu preço.

O texto do “New York Times” discute esse legado…

…que sempre foi frágil e está sob o risco de ser desfeito entre a retomada da violência sectária que já viu militantes sunitas efetivamente apagarem as fronteiras que [Bell] desenhou entre o Iraque e a Síria e aumentou a possibilidade de o Iraque ser dividido entre territórios sunitas, xiitas e curdos. Vistas através da experiência do passado recente tumultuoso do Iraque, as decisões tomadas por miss Bell […] oferecerem lições de cautela àqueles em busca de trazer estabilidade ou procurar vantagens na região.

A reportagem traz, em suas linhas, opiniões contrárias. Se há quem diga que Bell errou ao fomentar o poder de uma elite sunita, marginalizando xiitas, há também quem aponte um sistema de privilégios exercido ali por séculos pelo Império Otomano. Bell, para seus defensores, lutou pela auto-determinação dos povos árabes. Ainda hoje ela é chamada carinhosamente, no Iraque, de “miss Bell”. Um dos entrevistados do jornal americano diz que ela é a “primeira-dama, a rainha do Iraque”.

Bell morreu em Bagdá, e “seu sonho de um Iraque unido, pacífico e próspero não foi cumprido”. Em uma carta, anos antes, ela registrara: “Você pode contar com uma coisa. Nunca mais vou me dedicar a criar reis. É um esforço muito grande”.